Livro revisa 3 séculos de palcos no Rio

Doutor em artes, José Dias faz levantamento cronológico sobre arquitetura cênica e história em 300 endereços

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2013 | 02h09

Como tudo na vida, teatros nascem e morrem. Muitos viram supermercados, igrejas, shoppings, lojas de saldos, condomínios. Mas, até hoje, o vazio que deixam na paisagem e na cultura de uma cidade nunca foi tão bem esquadrinhado quanto no livro Teatros do Rio - do Século XVIII ao Século XX, de José Dias, um catatau de 744 páginas que acaba de ser lançado pela Funarte (custa R$ 70, e é um tesouro).

Levantamento inédito e cronológico sobre o desenvolvimento da arquitetura cênica nos últimos três séculos, a obra é resultado de um esforço hercúleo de mais de 40 anos de vida dedicada ao teatro pelo autor, José Dias, doutor em artes, mas também cenógrafo e diretor de arte de quase 400 espetáculos.

Ele iniciou a pesquisa para o livro como tese de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP, em 1999. "É um trabalho sofrido pesquisar cultura nesse país", diz o autor. "Por isso, eu digo onde encontrei cada foto, cada referência. Quero que, quando forem pesquisar, a partir de agora, tenham uma fonte, não quero que passem pelo que eu passei."

Como salienta a crítica Barbara Heliodora no prefácio da obra, o trabalho de Dias não é apenas uma pesquisa na confluência da arquitetura, do teatro e da História: é uma contribuição preciosa para todos os interessados em nossa vida cultural. E nas precariedades dessa vida cultural do País.

Dias inventariou o que existe, o que existiu e até o que parecia nunca ter existido. Como, por exemplo, o edifício da Escola Municipal Celestino Silva, na Rua do Lavradio, que aparentemente não denunciava o que foi um dia. Acontece que o local, que abrigou o Teatro Apollo (um dos quatro teatros Apollo do Rio) até 1916, teve sua função alterada por uma cláusula no testamento do seu criador, Celestino Silva, que queria que, após sua morte, o teatro virasse uma escola primária.

Detalhes sobre os espetáculos exibidos, sobre as estratégias de divulgação, sobre os intercâmbios culturais (os atores portugueses como José Ricardo, Ângela Pinto, Augusto Rosa, Palmira Torres; os estrangeiros inovadores, como Gianni Ratto e Ziembinski), os interesses comerciais, empresariais, as crises, o espraiamento dos teatros para as províncias, depois para os bairros: tudo que delimita o desenvolvimento de uma arte está abarcado na obra.

O primeiro teatro do Rio de Janeiro foi a Casa da Ópera do Padre Ventura, inaugurada no século 18 entre a Rua do Fogo (atual Rua dos Andradas) e a Rua da Vala (atual Uruguaiana). "Foi inaugurada em 1767 e, como de costume na época, por uma elenco de negros e mulatos", lembra o autor.

Um cronista de época, Sebastião Fernandes, escreveu: "Em 1763, o Rio de Janeiro era burgo triste, sem diversão. Havia uma figura muito popular, o Padre Ventura. Religioso, corcunda, tocador de violão e muito apreciado pelas cantigas. O Conde da Cunha convidou o Padre Ventura para reunir alguns cômicos e lhe arranjou uma velha casa do Largo do Capim, denominada Casa da Ópera. O Padre Ventura era pardo. Além de tocar violão, sabia cantar lundus e dançar o fado".

Segundo salienta José Dias, no contexto do Brasil colônia, o teatro já era uma forma de doutrina religiosa utilizada pelos jesuítas há muito tempo. "Ali, eles encenavam em fantasias o sensorial religioso. Mas não existiam casas para o teatro", conta ainda.

Somente com a vinda da corte portuguesa, no século 19, é que os nobres, fugidos da invasão napoleônica, começaram a engendrar um sistema cultural nativo.

Em 1813, ergueu-se o Teatro São João (atual João Caetano, mas em outro endereço hoje, já que sofreu três incêndios). Com a vinda da missão artística francesa, começou-se a pensar em um teatro também como monumento, como arquitetura.

O início do século 20 vai encontrar o teatro já começando a servir uma dupla função, ocupando-se também do cinema. Eram os cine-teatros, os cinematógrafos. Surgem também outros teatros de dupla função, instalados em museus - mas com espaços acanhados, sem camarins, com possibilidades cenográficas reduzidas. Logo a seguir, há a migração de teatros para o interior dos prédios, tradição que se inicia com o Teatro Carlos Gomes.

Ditadura. O sufocamento do teatro quando ele começava a se desenvolver como atividade profissional, segundo José Dias, tem um momento decisivo durante a ditadura militar. Até aquele momento, havia uma euforia, os atores montavam as próprias companhias, havia espetáculos de terça a domingo.

Com os militares, sobreveio uma ressaca de botas. "As casas perderam público, começaram a buscar soluções alternativas. Criou-se um teatro de resistência, mas fomos perdendo o local de trabalho com dignidade, com tecnologia, com a volumetria necessária para o seu desenvolvimento", analisa ele. "O teatro ficou a reboque após o golpe."

Os últimos teatros documentados por Dias são os de shopping center (O Teatro Grandes Atores, no Barra Square Shopping Center; o Barra Garden, ali vizinho; o Teatro Miguel Falabella, no NorteShopping; e o Teatro das Artes, aberto em 1998 no antigo Cine Gávea, dentro do Shopping da Gávea).

A historiografia permite concluir que o diagnóstico de José Dias não é novo: na década de 1950, por exemplo, sentindo a crise que rondava os teatros do Rio, um vereador, Raimundo Magalhães Júnior, criou uma lei que obrigava a que, a cada teatro demolido, um outro deveria ser construído nas mesmas condições.

Uma comissão de notáveis foi criada, e o presidente da comissão era um jovem empresário, Roberto Marinho, que alimentou a ideia de construir, na Avenida Chile, uma grande Broadway brasileira. Que não vingou, infelizmente.

O autor fez um trabalho completo e complexo, mas parece estar sempre atento para aprimorar. Ao ouvir falar que estão sendo escavadas as ruínas do que foi o Teatro Municipal Tibiriçá, na cidade arqueológica São João Marcos (Rio, entre Angra e Mangaratiba), ele já fica vivamente interessado. A misteriosa cidade chegou a ter 40 mil habitantes e foi destruída a golpes de marreta para dar lugar a uma usina. "É tanta coisa, mas sempre tem algo novo surgindo", maravilha-se Dias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.