Livro revela relação da cidade de São Paulo com suas águas

Denise Sant´Anna conta história detalhada e documentada da presença da água na vida cotidiana

Elias Thomé Saliba,

06 de dezembro de 2007 | 14h00

"Líquido precioso" talvez seja a expressão mais conhecida na língua portuguesa para designá-la, mas curiosamente, só a empregamos em ocasiões nas quais vivenciamos realmente a falta do abastecimento de água na vida de todos os dias. Ela já se tornou parte tão trivial da nossa realidade que só lembramos da sua importância quando ela nos falta. Como uma espécie de mágica, parece que a água encanada que nos chega rapidamente, acionada por um simples comando mecânico, já faz parte daquela segunda natureza do cidadão urbano. Esta trivialidade interfere também na nossa memória coletiva, pois tal atitude parece projetar-se em direção ao nosso passado: é só nos últimos anos que uma história dos usos (e abusos) dos nossos recursos hídricos começa a ser realizada. Cidade das Águas, de Denise Bernuzzi de Sant´Anna, lançamento recente da Editora SENAC, representa uma contribuição decisiva para começar a entender esta difícil e intrincada história. A noite de autógrafos será nesta quinta-feira, 6, na Livraria da Vila dos Jardins (Al. Lorena, 1731, tel.: 3062-1063 às 19 horas)  Veja também:Imagens do livro 'Cidade das Águas' Tanto mais difícil e intrincada ainda quando se trata da história de São Paulo, uma cidade que nasceu e cresceu sob o signo da impossibilidade: como foi possível esta megalópole urbana num sítio cujas características topográficas e fluviais eram claramente inadequadas? A excelente pesquisa de Denise Sant´Anna vem fornecer importantes subsídios para esta questão que, há anos, inquieta não apenas aos historiadores, sociólogos, urbanistas, administradores como também aos próprios habitantes metropolitanos. É uma história detalhada - e extensamente documentada - da presença da água na vida cotidiana dos paulistanos, desde a época das antigas biquinhas, regos e chafarizes até a construção das primeiras usinas no rio Tietê. Uma história tão peculiar de dificuldades, conflitos e lutas pelo uso da água que gerou inclusive uma cultura própria, constituída em função da sua presença no espaço público.  E uma cultura que, ainda no tempo presente, se esconde insidiosamente nas dobras da memória coletiva. Todos cantam "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas", mas quem é capaz de reconhecer no mesmo verso o antigo e aprazível curso d´água de nome Ipiranga? Qual é o paulistano de hoje que sabe que "Pari" significava originalmente uma técnica de pesca; "Pacaembu", "córrego das pacas" e "Lavapés", um pouso aquático provisório para descanso dos viajantes vindos de Santos? Durante muito tempo o contato dos paulistanos com a água passou por equipamentos, instituições e profissões hoje totalmente esquecidas: aguadeiros, canoeiros, lavadeiras, zeladores de pontes e chafarizes, casas de banho - nas quais se ofereciam, por preços módicos, "banhos de nado (imersão) ou de chuva(chuveiros)". Os banhos, introduzidos no longínquo ano de 1863, eram, contudo, um luxo para poucos. Uma época na qual o atual Parque D.Pedro ainda era uma extensa várzea alagadiça, chamada "Várzea do Carmo" e os riachos, córregos e rios - hoje completamente invisíveis pela canalização ou retificação - corriam a céu aberto Ou de ruas que conservaram apenas no nome a sua antiga função de portos existentes no rio Tamanduateí, como Porto Geral, Tabatinguera e Figueira. Lugares nos quais, eventualmente, até hoje a natureza se vinga, como nas chuvas de verão quando a rua 25 de março retorna à sua natureza de antigo rio, tornando-se completamente intransitável aos pedestres. Embora necessários, o rebaixamento do leito dos rios, as reversões de cursos e as canalizações, inegavelmente ampliaram as contaminações hídricas e inundações freqüentes.  Partindo da história do higienismo, marcada pelas inovações da microbiologia de Pasteur, a historiadora examina detalhadamente as principais correntes higienistas que surgiram a partir das reformas urbanas de Haussmann, na Paris oitocentista de Napoleão III - que, afinal, forneceram as diretrizes para engenheiros, administradores e técnicos brasileiros. Combinando o melhor dos métodos da história social com o registro sensível dos dramas coletivos que se desenrolavam por trás das estatísticas, da construção de sistemas, canalizações e redes de esgotos, Denise Bernuzzi reconstrói ainda a história das sucessivas políticas de saneamento e de combate às epidemias que, no final do século 19, constituíam as maiores ameaças trazidas pelas águas. Um livro que demonstra que na história de São Paulo, antes mesmo da fase mais aguda e caótica de sua metropolização, iniciou-se um processo confuso, mal-planejado e especulativo de ocupação predatória da natureza, gerando problemas de degradação urbana e ambiental cujas soluções são cada vez mais difíceis, senão impossíveis. Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de 'As Utopias Românticas'. Cidade das Águas. Usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo(1822-1901). De Denise Bernuzzi de Sant´Anna. Editora Senac-São Paulo. Lançamento nesta quinta, 6, na Livraria da Vila - Alameda Lorena, 1731, às 19 horas. 320 páginas. Preço: R$ 50 

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