Livro revela mais detalhes da vida de Anne Frank

A jornalista austríaca Melissa Müller leu O Diário de Anne Frank pela primeira vez aos 13 anos - a mesma idade que Anne tinha quando começou a escrevê-lo. Tempos depois, voltou a ler o Diário, desta vez em sua versão ampliada, contendo trechos e anotações removidos da edição original por Oto Frank, o pai de Anne. O contato com os escritos da adolescente judia morta no campo de extermínio nazista de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha, conduziu a jornalista a uma busca pela pessoa por trás do mito de Anne Frank, pela história que se estende antes e depois do período de dois anos registrado no diário e pela menina "que todos imaginam conhecer e da qual se sabe tão pouco". Seus esforços resultaram no livro Anne Frank - Uma Biografia (Ed. Record, 416 págs., R$ 50). Foi uma busca obsessiva. Não há como dedicar-se a uma empreitada como a que Melissa Müller se entregou sem uma certa dose de obsessão. Em dois anos, a jornalista revirou arquivos e documentos em diferentes países, localizou pessoas que conviveram com Anne - entre elas a holandesa Nanette Blitz, que sobreviveu a Bergen-Belsen e hoje vive em São Paulo -, e refez com angustiante precisão os últimos passos dos que pereceram, incluindo os da própria autora do Diário. Em meio a sua compulsiva peregrinação, Melissa acabou tendo acesso à duas anotações mantidas em segredo por Oto Frank (morto em 1980) e que seriam os últimos escritos inéditos de Anne Frank. Segundo Melissa, os textos contêm comentários sobre Edith, a mãe de Anne, e o destino que a garota pretendia dar aos escritos. Sua reprodução, porém, foi proibida pelo Anne Frank Fonds, instituição com sede na Suíça que detém os direitos autorais sobre o material. A proibição, contudo, não prejudica a obra de Melissa. Não é daí que o livro tira sua força, mas do trabalho meticuloso, artesanal até, de recuperar lembranças, cartas, documentos e vidas, costurando-os em um pungente retrato de dor e perda. Fatos novos vieram à luz, tamanha foi a devoção com que a jornalista empenhou-se em suas investigações. Um desses fatos diz respeito à delação que precipitou Anne ao horror de Auschwitz e Bergen-Belsen.Fugindo da feroz perseguição aos judeus em curso na Alemanha, a família Frank transferiu-se para Amsterdã. Mas a ocupação da Holanda pelas tropas alemãs fez com que Oto Frank optasse por uma alternativa desesperada. Para escapar às deportações de judeus, entre 1942 e 1944, Anne, a irmã Margot, o pai, a mãe e outras quatro pessoas viveram escondidos em um anexo secreto construído junto a um armazém de Amsterdã. Foi durante o confinamento que Anne escreveu seu célebre Diário.Em 4 de agosto de 1944, porém, o esconderijo é descoberto pela Gestapo, a polícia secreta alemã. Melissa Müller refaz este momento com impressionante precisão, e vai além: compara depoimentos colhidos em investigações posteriores, confronta-os com as lembranças dos sobreviventes e chega a apontar os possíveis delatores.O livro prossegue acompanhando Anne pelos sete meses que lhe restariam de vida e o calvário que foi suas passagens pelos campos de Westerbork e Auschwitz, até Bergen-Belsen, a parada final do inferno, onde, em um único mês - março de 1945 -, 17 mil pessoas morreram vítimas de fome, frio, maus-tratos e doenças infecciosas, entre elas Anne e sua irmã Margot.O leitor não é poupado de nenhum detalhe. Melissa não faz concessões em sua determinação de encontrar a pessoa por trás do mito. No último trem a jamais partir de Westerbork rumo a Auschwitz, 1.019 pessoas embarcaram em vagões usados para o transporte de gado. Dessas, 549 - entre as quais todas as crianças do grupo - foram enviadas diretamente para as câmaras de gás. Anne escapou, mas teve o antebraço tatuado com um número entre 25.060 e 25.271, informa Melissa, determinada a recuperar cada fragmento de informação.Com os cabelos raspados - os pêlos eram vendidos a indústrias têxteis -, enfraquecidas e cobertas de abscessos, Anne e Margot foram separadas da mãe e enviadas a Bergen-Belsen. Com o fim da guerra iminente, o campo era a materialização de um pesadelo: cadáveres e excrementos amontoavam-se no chão e até 600 prisioneiros dormiam de cócoras em galpões construídos para abrigar 60 pessoas. Lá, as duas irmãs sucumbiram ao tifo semanas antes de o campo ser libertado pelos ingleses. Em seus escritos, Anne Frank revelou o desejo de ser jornalista e escritora. Acabou sendo muito mais do que isso.

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