Livro revela histórias de resistências vividas por mulheres

Um toque no fundo da alma. Essa é a sensação de se falar com Lara Braun sobre o livro "Marias", escrito pelo seu pai Eduardo Castor Borgonovi e por ela própria, que terminou o trabalho iniciado há tempos e interrompido pela morte abrupta do jornalista. O livro será lançado nesta terça-feira, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, e é uma coletânea de histórias densas, ainda que curtas, sobre a resistência, o empenho, a coragem, a persistência de mulheres que superaram várias e diferentes barreiras naturais ao longo dos tempos, para alcançar um objetivo difícil e tido às vezes como impossível de ser atingido. São 50 mulheres, as Marias de Lara Braun e de Eduardo Castor. Elas são de suprema bondade, como Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, ou de extrema crueldade, como Wu Zetian, que matou centenas de rivais, incluindo uma filha, para tornar-se a única imperatriz da história da China.Continuidade após a morteJornalista, publicitário e escritor, Castor já havia selecionado os 50 personagens do seu segundo livro - o primeiro foi "O Livro das Revelações", de 1999 - e conseguiu escrever sobre 30 mulheres antes de ser colhido pela morte súbita em dezembro de 2000, vítima de enfarto. Depois de sua morte e de um período de intenso recolhimento, Lara Braun decidiu completar a obra do pai. Debruçou-se sobre a pesquisa das outras 20 mulheres escolhidas, utilizando como fonte biografias publicadas e muita informação da Internet, elaborou cuidadosamente cada um dos textos, revisou e reescreveu alguns dos que Castor havia deixado inacabados."Procurei seguir o planejamento dele, harmonizar o formato, tentei manter o mesmo padrão seguido pelo meu pai, tanto do ponto de vista da qualidade da informação quanto do enfoque", diz Lara Braun. HomenagemA preocupação de Eduardo Castor era descrever processos da vida de mulheres que contornaram imensas dificuldades, sem preocupar-se em procurar heroínas, em estabelecer critérios maniqueístas. Exemplos da sua obra são Hatchepsut Ma´at-ka-Ra, que pôs barba postiça e vestiu roupas masculinas para se tornar a primeira faraó do Egito. Beryl Markham, que atravessou o Atlântico sozinha num avião, um feito inédito até então.Se foi extremamente fiel à proposta e estilo do pai ao manter o fio deixado por ele nas narrativas das mulheres, Lara Braun solta-se totalmente no texto de apresentação. Uma ode de amor ao pai . Um pranto de saudade: "Querido pai, me lembro de quando você olhava o céu estrelado e dizia que, de tão transparente, poderia ser tocado com as mãos. Aquilo ressoava em mim como se a beleza do universo fosse tão clara, tão visível, que por mais que esquecêssemos, ela sempre estaria ali, bem perto, ao alcance das mãos. Hoje, devo lhe dizer, para os que o amam, você estará sempre vivo e será carinhosamente lembrado como o ´o-homem-que-olha-as-estrelas´."DisciplinaMas afora essa licença de poucas das 224 páginas do livro, Lara Braun mantém a disciplina. "Eram idéias que eu tinha dividido com meu pai, ele me falou várias vezes sobre o projeto do livro, discutíamos o assunto, respeitei o roteiro dele." Lara conta que Eduardo Castor sempre foi apaixonado por livros. Tinha-os em quantidade tal que construiu uma casa na Serra da Mantiqueira, perto de Mauá, onde reservou um espaço generoso para a biblioteca.Lara Braun conta que não se identifica com nenhuma das mulheres mencionadas no livro. "Existem mulheres muito humanas, mas há também as que são bastante cruéis. Isso, entretanto, não lhes diminui a importância histórica."Foram dois anos completos de pesquisas, estudos entre um trabalho temporário aqui, como jornalista, e outro ali, como arquiteta - Lara tem as duas profissões. Depois que seu pai morreu, teve o ímpeto de cuidar do que era dele. "Tinha tempo, condição e vontade. O esforço não foi demasiado, ainda que vez ou outra tivesse fraquejado, diante de dificuldades", comenta. HerançaLara observa que, ao contrário do pai, para ela, escrever é um ritual difícil, de elaboração - "não flui, tenho de trabalhar e retrabalhar" -, ainda que tenha herdado do pai o gosto pela leitura, que pratica desde criança. Hoje com 29 anos, Lara Braun, a segunda dos três filhos de Eduardo Castor Borgonovi com Suely (os outros dois são Eric, o mais velho, e Ivan, o caçula), ainda não sabe se vai dedicar-se a outro livro.No prefácio, o livro traz uma entrevista de Castor à AGÊNCIA ESTADO, de onde disparou mais de 200 artigos, distribuídos para todo o mundo, durante o período em que trabalhou na empresa. Na entrevista, Castor (apelido que ele acabou incorporando definitivamente ao nome) deixa claro seu objetivo com o livro: "Evito a idéia de que um livro como esse seja uma espécie de ranking. Vejo o livro como um produto de leitura que é oferecido às pessoas que dão algum dinheiro por um exemplar para ler. Penso apenas num material de leitura, honesto e agradável."Na entrevista, Castor conta que não gosta de distinguir homens de mulheres. A principal característica dessas mulheres, para ele, "é o fato de terem conseguido superar e vencer resistências incríveis contra o fato de serem mulheres".Serviço:"Marias - A Jornada Heróica de 50 Mulheres Que Fizeram História", de Lara Braun e Eduardo Castor Borgonovi. Alegro/Campus, 224 págs., R$ 44. Lançamento na terça-feira, às 19 horas, na Livraria Cultura. Shopping Villa-Lobos. Av. Nações Unidas, 4.777, tel. 3024-3599.

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