Livro revela documentos da guerrilha do Araguaia

Como dizem os especialistas, sem documentos não há história. Nesse sentido, é de importância inestimável o lançamento de Operação Araguaia -Arquivos Secretos da Guerrilha, pela Geração Editorial. O livro, escrito com base nas 1167 páginas de 112 documentos militares secretos, que se supunha perdidos, pode lançar luzes à ainda nebulosa história do combate que opôs militantes de esquerda do PC do B e forças do Exército brasileiro no início da década de 70 na região sul do Pará. Operação Araguaia, de autoria dos jornalistas Taís Morais e Eumano Silva, será lançado na quarta-feira em Brasília. Em um mês, a editora disponibilizará, pela internet, a íntegra dos documentos em que a obra se baseia. Já se escreveu muito sobre o Araguaia mas, como diz Elio Gaspari em seu A Ditadura Escancarada (Companhia das Letras, 2002), os fatos se perdem em um cipoal de versões. O Exército nunca contou para valer como venceu a luta contra os guerrilheiros. E o principal relato da versão oposta é a do militante Ângelo Arroyo que, ainda segundo Gaspari, a partir de certo ponto torna-se confuso. Enfim, é uma história sobre a qual poucos se dispõem a falar. E, no entanto, o conflito no Araguaia tornou-se a maior mobilização das forças armadas brasileiras desde a sua participação na 2.ª Guerra Mundial e é um marco da atuação da esquerda armada contra o regime militar. Segundo se desconfia, as duas partes envolvidas têm seus motivos para manter silêncio. De um lado, há o registro de atos de barbárie cometidos pelos soldados contra guerrilheiros e também contra a população local. De outro, a glorificação do movimento, empreendida pelo PC do B, distorce os fatos ou lhes dá interpretação fantasiosa. O conflito real envolveu algumas dezenas de guerrilheiros, combatidos por cerca de três mil soldados, com apoio de aviões e helicópteros. No final da luta, jagunços locais foram arregimentados e colocados na caça aos guerrilheiros, a troco de uma pequena fortuna em dinheiro por cabeça. Morreram 59 militantes do PC do B e cerca de 10 moradores do local. Alguns foram presos e sobreviveram, como ?Geraldo?, aliás José Genoino Neto, atual presidente do PT. O Exército ocultou o número final de vítimas do seu lado e assim, até hoje, não foi possível realizar um balanço sereno do episódio. Já na época do conflito, uma cortina de silêncio fora descida sobre os fatos. Sob o peso da censura, o País não sabia que um movimento guerrilheiro pela tomada do poder acontecia em seu território e que o Exército o combatia. Coube ao Estado dar a notícia num ?furo? de reportagem excepcional. A história toda da apuração da matéria escrita pelo repórter Henrique Gonzaga Júnior está descrita em três capítulos do livro de Taís Morais e Eumano Silva. A reportagem (?Em Xambioá, a luta é contra guerrilheiros e atraso?), que passou pelas malhas da censura, saiu numa edição dominical do Estado, dia 24 de setembro de 1972. Para proteção do repórter, o texto não foi assinado. Dois dias depois a notícia era veiculada no New York Times. Em 1979, o Jornal da Tarde publicou extensa série de reportagens sobre o tema. Em seguida, veio o livro do jornalista do JT, Fernando Portela, com o título de Guerra de Guerrilhas no Brasil: a Saga do Araguaia, uma ampliação das reportagens, que virou best seller. De qualquer modo, toda vez que se tentou contar a história do Araguaia ela se revelou repleta de lacunas. Algumas delas certamente serão preenchidas pelos documentos revelados. Os autores levaram em conta os relatos encontrados nos papéis secretos do Exército agora encontrados e também entrevistaram alguns dos sobreviventes da guerra, militares e civis. Produziram uma narrativa que se lê como um romance de cortar o fôlego.Operação Araguaia, de Taís Morais e Eumano Silva. Geração Editorial. 656 págs. R$ 59,00

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