Livro revela casos ocultos da história do País

Episódios secretos sempre atraíramgente que faz da curiosidade dever de ofício. De lavadeiras ajornalistas, passando por historiadores e diplomatas, todos elesnunca desprezaram desde a simples fofoca, até a boa trama, semesquecer a teoria conspiratória mais bem sustentada. Quandodocumentação séria demonstra a conspiração, a curiosidadeaumenta. Imagine, por exemplo, ficar sabendo que os argentinosurdiram um plano para seqüestrar d. Pedro I em 1828, devidamenteajudados pelos mercenários alemães que "trabalhavam" no Rio deJaneiro. E a questão da causalidade do descobrimento do Brasil?Que tal confirmar, com documentação impressionante, que a viagemde Cabral não passou de uma "grande operação diplomática" daCorte em Lisboa para garantir espaços na luta com a Espanha porterra e influência no Novo Mundo? Em tempo, vale a pena conhecero plano português para matar Colombo, durante a visita a Lisboa,abortado no último instante. Ou, então, a esquadra de"mentira" com que o general Floriano derrotou o almiranteSaldanha da Gama na revolta da Armada de 1893. Há mais, muitomais... A maturidade intelectual do autor, historiadorexperiente, dá um sabor especial ao texto. Depois de quase 50anos de serviço, depois de chegar à Secretaria-Geral doItamaraty, o embaixador Sérgio Corrêa da Costa faz uma viagem devolta aos 19 anos, aos mesmos papéis e temas quecom que mexia no Arquivo Histórico do Ministério, enquanto "esperava"o primeiro posto. Esse reencontro, de quem já escreveu e viveu osuficiente para confessar que é "dono do seu nariz" com afúria do jovem pesquisador, gerou texto que é um jeito especialde acertar contas com o passado. Há uma mensagem, sinuosa einteligente, em cada tema ou personagem histórico desconstruídoou reconstruído e cada leitor recolhe quanto pode da fina ironiado embaixador. Por exemplo, d. João VI é modelo de reconstrução,com direito a prova documental do reconhecimento de Napoleão:"Foi o único que me enganou." Com a impetuosidade de menino, o autor do clássico ADiplomacia do Marechal - Intervenção Estrangeira na Revolta daArmada invade segredos de Estado sem constrangimentos, desnudadecisões de poder sem nenhuma cerimônia, reconstrói diálogos eafirmações, não esconde a insinuação, descompromissada e aomesmo tempo bem documentada. Na página 166, para pinçar umexemplo, o embaixador retoma as circunstâncias da Independênciapara lembrar a frase célebre de que tudo não passou de um"ignóbil arranjo de família"; dois parágrafos adiante, noentanto, o embaixador retoma correspondência oficial de 18 desetembro de 1824, entre dois ministros mostrando que na hipótesede o infante d. Miguel voltar do exílio, d. João voltaria aoBrasil "para findar seus dias na Ilha de Itaparica", como erade seu desejo. Para quem gosta de brincar com idéias, há tambéma carta de d. Pedro I, de 1825, dirigida ao pai, logo após oreconhecimento formal da Independência: "Fiz de minha partetudo quando podia. Vossa Majestade alcançou todas as suas reaispretensões." Não ficou escondido nenhum dos detalhes da trama. Historiadores, como os espiões, adoram revelações. Eestas não faltam, principalmente no delicioso capítulo sobre olivro A Arte de Furtar, do século 17, e da atenta lembrança -sempre tão atual - dos que "furtam com unhas vagarosas".Brasil, Segredo de Estado - De Sérgio Corrêa da Costa.Editora Record, 394 pp. R$ 42.

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