Livro revela a importância do vinho na resistência francesa

Os produtores de vinho da França acreditam que, antes de uma guerra estourar, Deus manda uma safra terrível. Durante a guerra, safras medíocres. Ao final dela, uma safra ótima, festiva. O ano da graça de 1939 entrou para a história, para a maioria dos vinicultores franceses, como o da pior safra do século. As notícias corriam, mas foi na hora de colher as uvas, portanto, que eles tiveram certeza: os alemães estavam chegando. A nação e suas riquezas iriam ser saqueadas. Era preciso, como já haviam ensinado a guerra contra a Prússia de 1870 e a Grande Guerra (1914-1918), estar preparado. A 2.ª Guerra Mundial, como as outras, apresentava um velho desafio a esses agricultores e produtores de vinho: era preciso proteger uma das maiores tradições do país dos saques e da exploração econômica dos inimigos. Portanto, era hora de trapacear, mentir, dissimular: esconder as melhores safras, pôr os melhores rótulos nos piores vinhos, acumular teias de aranha para maquiar garrafas novas, roubar os carregamentos da bebida que rumavam para Alemanha. Em resumo, garantir a sobrevivência de um símbolo nacional, até que os nazistas fossem derrotados.Vinho & Guerra (Jorge Zahar, 255 págs., R$ 25), do casal Don e Petie Kladstrup, narra essa fascinante história: a de como o vinho ajudou não apenas a garantir o moral da sociedade francesa durante a ocupação alemã, mas também como os vinicultores participaram da resistência, escondendo armas nas caves e mesmo ativistas dentro de tonéis, para que cruzassem de forma insuspeita barreiras militares. E ainda como, apesar das condições totalmente adversas, conseguiram produzir um vinho de qualidade razoável ou até mesmo boa. "Trabalhamos intensivamente no livro por três anos, mas na verdade, pensamos no assunto desde que nos mudamos para a França, em 1978", contaram os autores à reportagem. "Desde então, nosso interesse pela história do vinho e dos vinhedos franceses cresceu - num período em que tivemos a sorte de experimentar vinhos fantásticos feitos durante a Guerra." A cada degustação, mais crescia o interesse do casal - eles escrevem para a Wine Spectator, a mais importante revista americana sobre vinhos. "Mas, quando fomos investigar mais profundamente, descobrimos que não havia quase nada escrito sobre o assunto." Don e Petie começaram, então, a coletar histórias relacionadas à guerra e ao vinho. Não foi fácil. Além das mortes, dores e marcas normalmente deixadas por uma guerra, no caso da ocupação alemã, há uma dificuldade ainda maior, porque muitos franceses colaboraram com o nazismo - e, claro, não têm nenhum orgulho disso. Outro problema foi entrevistar os alemães. "É muito difícil perguntar a alguém: ´Você era uma pessoa terrível? Ou, ainda, seu pai era uma pessoa ruim?´ Mas nos supreendemos com a abertura e a boa vontade dos alemães." Entre eles, estava Heinz Boemers Jr. Seu pai assumira o papel de "Weinfüher" de Bordeaux, ou seja, tornou-se o alemão responsável por negociar com os produtores franceses. "Ele acredita que os alemães foram forçados a encarar o passado e, portanto, estão mais preparados que os franceses para falar das experiências da 2.ª Guerra Mundial." Aos poucos, contudo, os franceses foram se abrindo e o resultado é que, no final, contam, "o problema foi eliminar algumas boas histórias". Decidiram, então, contar especialmente as histórias de cinco grandes famílias, que representam regiões produtoras do melhor vinho francês - como Alsácia e Bordeaux. A família Hugel, da Alsácia (região historicamente disputada pelos dois países), por exemplo, tinha um filho de cada lado do front: um pela Alemanha, outro pela França.Champanhe - Pelas páginas de Vinho & Guerra passeiam nomes que estão nas melhores adegas. A Moët & Chandon, por exemplo, está no centro da relação entre alemães e franceses durante a ocupação. "Nos primeiros dias da ocupação, a Moët & Chandon fora mais saqueada do que qualquer outra casa de champanhe. O château Chandon, nos terrenos da abadia Dom Pérignon, fora destruído pelo fogo e muitos outros prédios pertencentes à Moët haviam sido tomados para alojar tropas alemãs. Para somar insulto à injúria, a companhia recebeu também ordens de fornecer ao Terceiro Reich 50 mil garrafas de champanhe por semana, ou cerca de um décimo de todo o champanhe que os alemães estavam requisitando." Na opinião dos autores, o vinho não é uma simples bebida. Nem uma "commodity" apenas. "O vinho definitivamente teve um papel geopolítico; sua indústria foi fundamental na recuperação econômica da França e da Europa Ocidental depois da guerra; também forçou os velhos inimigos a sentar à mesa de negociação." O melhor exemplo, no caso, foi a reaproximação entre Heinz Boemers, o alemão que decidia preços e compras em Bordeaux durante a ocupação, e o barão Philippe de Rothschild, do Château Mouton Rothschild. "Boemers perguntou se o francês o aceitaria como seu representante na Alemanha. ´Por que não?, perguntou o barão. Estamos reconstruindo uma nova Europa."

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