Livro reunirá todas as formas literárias

Ariano Suassuna pretende reunir, em seu livro a ser publicado em novembro, todas as formas literárias que trata com habilidade, como a poesia e a dramaturgia. Ainda sem título, a obra vai contar "as novas e sensacionais aventuras de Quaderna, o Decifrador", como já anunciou em entrevistas. Retomando um formato iniciado em Romance da Pedra do Reino, cujo personagem principal é justamente Pedro Diniz Quaderna, Suassuna pretende entrelaçar poesia e gravuras na trama do romance. Localizada na divisa entre Pernambuco e Paraíba, a região da Pedra do Reino tornou-se conhecida por causa de uma tragédia provocada pelo fanatismo religioso, em 1838, que resultou em 90 mortos. O fato é lembrado anualmente na festa Cavalgada à Pedra do Reino, que homenageia os que perderam a vida no conflito: as pedras são banhadas com vinho, simbolizando o derramamento de sangue. Inspirou também o documentário A Pedra do Reino, dos jornalistas Anna Azevedo e Eduardo Souza Lima, em finalização. Como trabalha artesanalmente, criando a própria tipologia do texto, o escritor busca a reclusão para progredir com o projeto. Este ano, porém, em que completa 75 anos, está sendo agitado. Em fevereiro, depois de muito relutar, Ariano aceitou desfilar pela escola de samba Império Serrano, no Rio, que elegeu sua obra como tema. Dois meses depois, veio a São Paulo participar da Bienal do Livro, oportunidade que aproveitou para manter outros contatos com o público, como uma palestra no Sesc Anchieta, em que defendeu a cultura brasileira com rigor e bom humor. Como no momento em que justificou sua restrição ao uso da moderna tecnologia, como o computador, do qual se considera inimigo. Suassuna lembrou de um episódio em que uma amiga decidiu escrever o nome dele em um texto computadorizado. A máquina, dotada de um corretor ortográfico, aceitou quando ela digitou "Ariano". Quando a mulher escreveu o segundo nome do escritor, Villar, porém, o computador recusou e sugeriu "vilão". O pior aconteceu quando foi escrito o sobrenome - a máquina não só recusou "Suassuna" como apontou "assassino" como sugestão. "Meu nome no computador é Ariano Vilão Assassino. E dizem que eu sou inimigo dele...", ironizou o escritor, que só vê uma utilidade no artefato: divulgar sua obra para outras pessoas. "Mas, se ninguém quiser, não tem problema. Eu leio para minha mulher."Assassino- Ariano contou ainda que escreve desde os 12 anos, cedo revelando-se um escritor extremamente prático - quando não sabia o que fazer com o destino de um personagem, simplesmente o matava. "Eu era um assassino horroso e o pior é que fiquei adulto e continuei", comentou ele, lembrando que, no Auto da Compadecida, sua obra mais famosa, todos os personagens morrem, com exceção de Chicó. "Esse eu não tive coragem de matar, pois tenho uma admiração danada por mentirosos", justificou. "Existem duas raças de gente com as quais simpatizo: mentirosos e doidos, porque eles são primos legítimos dos escritores." Para Ariano, o mentiroso é um sujeito que não se conforma com o universo comum e inventa outro. "Ora, isso é um escritor. Não acontece nada na minha vida; assim, se não mentir, o que é que eu vou contar?" O escritor paraibano contou que sua principal fonte de inspiração é o povo brasileiro, base de toda sua obra. "Quando comecei a escrever, não queria copiar o teatro alemão ou o americano ou o francês. Queria fazer um teatro que expressasse meu país, o povo brasileiro que é o meu povo." Ferrenho defensor dos costumes e do idioma nacionais, Ariano Suassuna estende sua luta para a literatura, em que distingue sucesso do êxito. Segundo ele, sucesso é facilmente atingido, o que marca o livro que envelhece rapidamente. Já o êxito é característica de uma obra verdadeira, como é o caso de Os Sertões, de Euclides da Cunha, cujo lançamento completa cem anos em dezembro. "Ele errou ao se deixar impressionar pela falsa ciência social européia da época, mas a poesia de seu texto é poderosa e revela um Brasil verdadeiro e profundo." Ariano defendeu ainda escritores que considera injustamente relegados a uma posição secundária, como José de Alencar: "Ele mapeou o Brasil em suas obras, revelando todos os tipos que formam a nação."

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