Livro reúne três séculos de imagens do negro

Calunga grande é o mar. Calunga pequena, o cemitério. Calunga é uma palavra de origem banto, que designa a divindade das águas. No Brasil, está ligada à umbanda. ?Quando os ingleses se julgaram no direito de aprisionar os navios negreiros, a ?carga humana? de escravos era lançada ao mar?, diz o pesquisador Carlos Eugênio Marcondes de Moura. O que fez do oceano um grande cemitério.Foi lançado na tarde de sábado, às 15h, no Bravo Café da Pinacoteca do Estado, o livro A Travessia da Calunga Grande: Três Séculos de Imagens sobre o Negro no Brasil. O livro, que integra a coleção Uspiana Brasil 500 Anos, cataloga quase 2.600 imagens em que os africanos e seus descendentes são retratados no Brasil ? e traz a reprodução de 507 delas. A pesquisa foi feita no acervo do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da Universidade de São Paulo, e estendida à Coleção Guita e José Mindlin. ?Meu objetivo era reproduzir todas, mas esse ainda é um sonho distante?, diz Marcondes de Moura, organizador do projeto. ?Ver essas imagens é extremamente importante.? O objetivo principal da obra, cuja pesquisa levou dois anos e meio e contou com apoio da Fapesp e da Fundação Guggenheim, é orientar o trabalho de outros pesquisadores.A mais antiga obra catalogada é de Frans Post. O óleo sobre tela Île de Itamaracá, de 1637, é um dos poucos pintados pelo artista durante sua estada no Brasil. ?Todo o registro iconográfico do século 17 se deve à presença dos artistas trazidos para Pernambuco por Johan Maurits, príncipe de Nassau?, escreve o organizador na introdução. Uma considerável parcela das obras reproduzidas é bastante conhecida do público, em especial as realizadas por viajantes do século 19. Jean-Baptiste Debret, Albert Eckhout e Johann Moritz Rugendas são autores que, forçosamente, tinham de fazer parte da edição.Algumas peças são reproduzidas de outros catálogos. Por razões de ordem prática e econômica, não foi possível fotografar todas as imagens a partir do original, o que, por vezes, compromete o resultado (é o caso, por exemplo, de um ex-voto de autoria não identificada, que retrata a Batalha dos Guararapes, de 1758).O conjunto, no entanto, permite visualizar como a figura do negro foi vista de 1637 a 1899. Há de tudo, das aquarelas de vendedoras de frutas de Carlos Julião às fotografias feitas por Christiano Jr., para serem vendidas na Europa. A Travessia da Calunga Grande passa, também, pelo racismo explícito da Revista Illustrada (?Pobre lavoura! Já não bastava o preto, vaes ter o ammarello! Com o auxílio de duas raças tão intelligentes, ella hade progredir de um modo espantoso!? era a estúpida legenda de um dos desenhos). O mesmo autor dessa ilustração, no entanto, retrataria o abolicionista negro Luiz Gama, sério e compenetrado.Além da tradicional catalogação por autor, a obra traz um minucioso índice temático, com categorias como abolicionismo, alegorias, escultores, etnias negro-africanas, miscigenação, religião ? que comportam, também, subdivisões. Esse trabalho analítico permitiu que Marcondes de Moura identificasse as principais situações retratadas pelos artistas. O trabalho masculino mais freqüente foi o de aguadeiro (92 casos), seguido do de pajens e moleques (70). Entre as mulheres, a figura das quitandeiras e quituteiras foi a registrada o maior número de vezes (128), à frente das mucamas (87) e das vendedoras de frutas (71).

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