Livro reúne textos de famosos escritores sobre cocaína

Chico Buarque não está sozinho em sua defesa da descriminalização da maconha. O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, que assina o prefácio do livro Cocaína (Casa da Palavra, 152 págs., R$ 34,90), organizado pela professora Beatriz Resende, diz que a sociedade talvez venha a concluir que "a criminalização é sempre o pior caminho para reduzir os danos do abuso e controlar o consumo de substâncias que proporcionam prazer, mas cobram um preço elevado à saúde e à liberdade". Soares participa, na segunda, às 20h, de um debate com a organizadora do livro, que será lançado na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema, Rio). Cocaína é um livro curioso. E corajoso. Reúne autores que experimentaram ou tiveram amigos e conhecidos envolvidos com a droga, de Olavo Bilac a Patrícia Galvão (Pagu), passando por João do Rio, Orestes Barbosa, Lima Barreto e Manuel Bandeira. A organizadora da coletânea, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro que pesquisa o modernismo brasileiro, reuniu no livro textos raríssimos, peças literárias a que poucos tinham acesso. O primeiro deles foi escrito em 1894 por Olavo Bilac. Chama-se Haxixe e já começa citando Os Paraísos Artificiais (1860) de Baudelaire, reunião de poemas sobre comedores de ópio que descreve sensações de personagens excitados com o efeito das drogas. O parnasiano Bilac, naturalmente, não era liberal como o poeta francês. Faz o personagem de seu conto concluir que os poderes do ópio estão longe dos encantos prometidos por Baudelaire. Contudo, o alerta de Bilac não desestimulou novos usuários. A professora Beatriz Resende observa que, na Primeira República, "o entusiasmo pela modernização vai fazer com que a idéia de decadência de costumes freqüentemente ligada ao ópio e ao haxixe seja substituída pela ambição da euforia encontrada no éter e na cocaína". Vale lembrar que, vendida nas farmácias para minimizar dores até meados dos anos 1930, a cocaína era consumida nos bares, nas pensões e anunciada sem restrições até ter seu consumo proibido por lei, em 1938, reforçando o decreto-lei de 1921 que coibia a venda de substâncias alucinógenas. A polêmica em torno da descriminalização começou em 1928, dois anos após a criação, no Rio, de uma delegacia especializada no comércio ilícito de entorpecentes. Uma carta enviada ao governo por farmacêuticos e laboratórios solicitou maior envolvimento oficial no tratamento de usuários e a abolição das penas de prisão. Mas a repressão recrudesceu e só reforçou o uso das drogas. Vivia-se, então, o clima da modernidade e a transgressão era norma para intelectuais. A elite cultural queria mostrar-se antenada com o espírito cosmopolita francês, segundo a organizadora do livro. Sobre esse assunto Beatriz Resende selecionou três contos de Benjamin Costallat, escritor popular nos anos 1920, para mostrar que, quanto maior a repressão, tanto maior era a difusão do uso da cocaína e da morfina não só entre artistas e escritores como na música popular. A Cocaína, samba (ainda chamado de canção-tango) composto por Sinhô em 1923, é o exemplo de como os músicos populares já tinham consciência dos males provocados pelo consumo da droga. Sua ligação com o submundo do crime e da prostituição seria depois retratada por outro compositor, Orestes Barbosa, na crônica A Favela, escrita justamente no ano da Semana de Arte Moderna, 1922. Em A Favela, o autor de Chão de Estrelas fala de duas cidades numa só: o Rio da alta roda de Botafogo, que toma ópio no beco dos Ferreiros, e da favela, dominada pela nata da malandragem, que já começava a vender droga malhada para os cariocas. No mesmo ano da Semana, Coelho Neto escreve (em Vício Novo) a favor da repressão às drogas, argumentando que o álcool, apesar de nocivo, não é tão perigoso como a cocaína, o ópio ou a morfina. Um ano depois da Semana, um de seus idealizadores, Mário de Andrade, vai ao Rio e experimenta a cocaína, revelando ao médico e escritor mineiro Pedro Nava suas impressões sobre a droga, consumida durante o carnaval, época em que se cheirava abertamente o éter, que circulava livremente nos salões. Manuel Bandeira até escreveu um poema sobre ele, em 1925, Não Sei Dançar, incluído na antologia. Na terça-feira gorda, uns tomavam éter, outros cheiravam cocaína, diz Bandeira. Jura o poeta que só tomava alegria, embora não diga se em frasco ou em pó. A partir da data em que Bandeira escreveu seu poema, os textos literários, segundo Beatriz Resende, "revelam preocupação sobretudo com os efeitos do ópio e da morfina, ao mesmo tempo em que a perversidade que envolve o comércio da cocaína vendida clandestinamente começa a ficar clara". Sobre isso fala a crônica de Benjamin Costallat, No Bairro da Cocaína (1924), em que ele conta a história da parisiense Gaby, dona de uma pensão na praia da Glória onde os toxicômanos se reuniam e "aspiravam pitadas de pó em companhia de mulheres". Gaby, segundo o autor, seria incapaz de socorrer alguém com fome, mas venderia a última peça de roupa, a última jóia, para alimentar seu vício - e o dos outros. Gaby era a sacerdotisa de uma nova religião, a cocaína, conclui Costallat. É o mesmo Costallat que constata, numa outra crônica, o advento de uma outra espécie, os egressos de sanatórios, que jamais assumem ter passado por um deles para se curar da cocaína. "A sociedade não se vexa com seus vícios, vexa-se com a divulgação do seu tratamento", escreve, encerrando a peça literária com a história de uma linda garota pervertida pelo companheiro cocainômano e internada num manicômio. Infelizmente, para sempre. Desnecessário lembrar que esse é também o destino de muitos alcoólatras. A escolha arbitrária entre as drogas que são proibidas e as que são toleradas, segundo o antropólogo Luiz Eduardo Soares, "explica porque convivemos com as tragédias provocadas pelo alcoolismo e o tabagismo sem que ninguém ouse postular a criminalização do consumo".

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