Livro reúne recortes de amor e contracultura

Histórias de amor são normalmente abomináveis. A não ser que se chamem Os Sofrimentos de Werther, Romeu e Julieta, ou tenham sido vividas por Joyce Johnson (nascida Glassman) e Jack Kerouac. Nos dois primeiros, pela excelência literária. A última, pelo recorte de vida: é um caso da Beat Generation, em que os ingredientes principais correm por conta da liberação feminina, dos costumes em geral, do uso de drogas, do álcool e da busca de alguma coisa que ninguém sabe direito o que é, lembrando os personagens de Thomas Wolfe e Henry Miller vagando pela Broadway. A história de Joyce e Jack está em Door Wide Open, lançado nos EUA, que traz as cartas dos dois, escritas entre 1957 e 1958. Como fundo musical, nada de jazz, o mais indicado é Hank Williams (pai), e seu clássico country Ramblin Man, sobre um homem errante que pede compreensão à namorada, por ter sido feito dessa maneira, mas não tem saída.O relacionamento do casal, em que ela faz a heroína paciente, aquela que fica sozinha, e ele é o cavaleiro condenado à eterna solidão, torna-se mais interessante à medida que o dado romântico floresce no meio da confusão em que irrompeu a contracultura. Se as cartas tivessem sido publicadas com uma simples apresentação, teriam peso de documento, mas o conjunto cresce em função do enfoque dado por Joyce, ela também romancista, que utilizou o material como possibilidade de investigação de uma época e seus personagens. Devido a isso, o livro pode ser lido como um bom romance experimental.Na apresentação, Joyce rememora a paixão inicial por Kerouac, ainda de leitura. Na sua busca de moça da baixa classe média judia nova-iorquina, encontra-se certa noite em uma reunião com Allen Ginsberg, que recebe um telefonema do amigo Jack e o convida, dizendo que há ali uma moça interessada em conhecê-lo. Marcam o encontro num bar do Village e acabam indo para casa juntos.O que mais contrasta no acompanhamento da correspondência - tendo como pano de fundo assassinato, suicídio e a luta de um grupo de artistas pela auto-afirmação -, é o papel representado pelos dois. Ela se mostra uma pessoa preocupada com a profundidade do relacionamento, que gostaria de perpetuar. Ele faz o doidivanas cheio de mulheres, dominado pelo álcool e quase enlouquecido pela indiferença dos editores em relação a sua obra recente que fica na gaveta, até On the Road, com o qual Kerouac se tornou uma celebridade. Ginsberg chega a dizer a Joyce que ela deveria ficar com Jack, apesar da inconstância, pois ele era o tipo do sujeito capaz de sempre voltar e contar tudo a ela. Joyce não podia aceitar isso. Uma inconstância que nem sempre implicava a presença de outra mulher. Ele podia dar um tempo em algum lugar isolado, numa cabana utópica, até decidir voltar à circulação.Flerte - Curioso, além de irônico é que o batalhador da liberação de arte e vida gira feito barata tonta ao redor da figura de uma mãe pavorosa, enquanto debulha as garotas. Joyce, cansada de bancar Penélope, resolve esquecer o namorado ao flagrá-lo, bem nas barbas dela, flertando com outra mulher. Ainda contrafeita, voltou ansiosamente os olhos para ver se Jack ainda estava lá, mas ele tinha desaparecido - o clichê, insuportável na literatura, cai bem numa cena real. Mais tarde, após relacionamentos avulsos, casa-se com o "homem da sua vida", James Johnson, que não perde tempo e morre num acidente de motocicleta.Com anotações precisas e sem carregar na dramaticidade, ela constrói uma espécie de novela em que os fragmentos começam a sugerir alguma possibilidade de sentido. Kerouac, sem rumo, vagando dos Estados Unidos até o Marrocos, onde foi encontrar-se com William Burroughs, por Paris, São Francisco, Nova York, segue, apenas, uma outra vertente da solidão.Ele morreu cedo. Ela, duas vezes viúva, vendeu as cartas originais de Kerouac e construiu uma pequena "casinha marrom na margem da floresta". Segundo ela, Jack teria aprovado. E à noite, fica imaginando a proximidade com que ele ouviria "este vibrante silêncio".Door Wide Open Pode ser encomendado na Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073, tel. 285-4033) ou pela Internet, no endereço www.amazon.com.

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