Reprodução/Desenho de Elifas Andreato
Reprodução/Desenho de Elifas Andreato

Livro reúne principais trabalhos de Elifas Andreato

Artista fez mais de 350 capas de discos, além de cartazes de filmes e peças de teatro, capas de livros

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2010 | 06h00

Na música, foram mais de 350 capas de discos, boa parte transformada em objetos de arte. No cinema, filmes nacionais ganharam destaque com seu traço no cartaz. Na literatura, traduziu em ilustrações a prosa densa e inquieta de Clarice Lispector e Murilo Rubião. E, no teatro, um de seus trabalhos mais expressivos, o cartaz da peça Mortos Sem Sepultura, foi apreendido pela Polícia Federal em 1977. Apesar de preferir a alcunha de artesão, Elifas Andreato é um dos mais importantes artistas gráficos do País, como comprova seu Portfólio Brasil, livro com principais trabalhos editado pela editora JJ Carol e que será lançado nesta quarta, 14.

 

"Minha arte se liga à história da minha vida, das vidas assemelhadas à minha, e serve para contar o que eu e pessoas semelhantes a mim entendemos seja o mundo, a justiça e a liberdade", observa Elifas, no texto de apresentação do portfólio. Na verdade, trata-se de um rápido rascunho sobre a origem de sua arte, iniciada, como ele mesmo conta, em uma fábrica de Vila Anastácio, onde construía cenários para os bailes no refeitório da empresa a partir de bobinas de papel de embrulho que serviriam para embalar fósforos.

 

Mesmo amadoras, as pinturas impressionaram um grupo de ingleses que visitaram a empresa e convenceram os patrões de que aquele adolescente pobre, morador de cortiço, deveria estudar artes visuais. Foi o passo decisivo para que ele ingressasse em pequenas agências de publicidade até que, aos 20 anos, arrumou um emprego na editora Abril, onde se notabilizou especialmente pelos encartes da coleção História da Música Popular Brasileira, no início da década de 1970.

 

Como acompanhava a entrevista com os artistas, familiarizou-se com o trabalho da maioria deles a ponto de ser convidado por Paulinho da Viola para desenhar a capa de seus discos. Nasceu uma amizade tão próxima que, no LP Nervos de Aço, de 1973, Elifas expôs um delicado problema sofrido pelo músico na época: seu desenho com uma lágrima escorrendo e um buquê de flores indicava a separação de Isa, a primeira mulher.

 

"Pode parecer presunçoso, mas considero que foi com esse disco que eu inaugurei as capas de LP no Brasil. Encontrei um nicho que ainda não havia sido explorado por aqui", disse ele ao Jornal da Tarde em 2006, quando foi aberta uma exposição em homenagem aos seus 60 anos.

De fato, sua forma peculiar (sempre se aproximava do artista antes de iniciar qualquer trabalho) permitiu a descoberta de detalhes que transformavam especialmente as capas de LP em verdadeiras obras de arte. Para o disco comemorativo dos 70 anos de Adoniran Barbosa, por exemplo, em 1980, ele desenvolveu um estudo que mostra o rosto do artista com uma lágrima escorrendo. "Elifas, sou esse palhaço triste", vaticinou o músico.

 

Areia. Outra solução genial resultou na capa do Clementina de Jesus, de 1979: em uma caixa com argila e areia, figura o molde dos pés da cantora, cujo nome aparece mais acima. O desenho de Clementina, aliás, é considerado por ele mesmo como o melhor que já fez. "Hermínio Bello de Carvalho o chama de ‘A nossa Monalisa’."

 

No teatro, Elifas, que é irmão do ator e diretor Elias Andreato, também criou cartazes memoráveis. Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, ostenta o desenho anatômico dos músculos do corpo humano coberto por uma pele de porco tatuada. Já o homem cabisbaixo que figura no cartaz de A Morte do Caixeiro Viajante, dirigido por Flávio Rangel em 1984, foi elogiado pelo próprio autor da peça, o americano Arthur Miller, que, em carta ao diretor, confessou mantê-lo pendurado em sua cozinha: "É onde posso admirá-lo todos os dias." "Vai ser difícil escrever a história das últimas décadas do Brasil sem ilustrá-la com a arte de Elifas", bem observa Fernando Morais, no prefácio do portfólio.

 

Elifas Andreato Coleção: Portfólio Brasil (J.J. Carol Editora, 132 págs., R$ 49). Local: Melograno Forneria & Empório de Cervejas. R. Aspicuelta, 436. Quarta, 14, 19h30.

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