Livro reúne melhores peças de Cervantes e Lope de Vega

Aproximadamente 5% dos livros que integram o catálogo da Perspectiva são traduzidos do espanhol. De Ortega Y Gasset ao mexicano Octavio Paz, passando pelo argentino Julio Cortázar e autores do Medievo, a editora publicou nomes fundamentais da literatura e do teatro em castelhano. No entanto, faltava na lista um volume dedicado à produção teatral espanhola do Siglo de Oro (período que vai do Renascimento ao Barroco, no século 17), que viu nascer obras-primas como A Vida É Sonho e Fuente Ovejuna. Não falta mais: acaba de ser lançado Teatro Espanhol do Século de Ouro. O 26.º volume da coleção Textos foi organizado por Jacó Guinsburg e Newton Cunha com tradução e apresentação do segundo e comentários introdutórios às peças de Ignacio Arellano, professor de literatura da Universidade de Navarra.

O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2012 | 03h07

São seis os autores daquele extraordinário período que têm suas peças traduzidas no livro, do pioneiro Juan del Encina (1469-1529) a Calderón de La Barca (1600-1681), passando por Lope de Rueda (1510-1565), Miguel de Cervantes (1547-1616), Lope de Vega (1562-1635) e Tirso de Molina (1579-1648). A coletânea mostra que a Espanha não apenas ocupou um papel dominante na política, nas armas e na religião da época das grandes navegações e descobrimentos como cumpriu seu destino de grande rival das arenas teatrais da Inglaterra. Se os ingleses tinham Shakespeare (1564-1616), os espanhóis contaram com Cervantes e Lope de Vega escrevendo no mesmo período.

Na fortuna crítica que acompanha o livro, Otto Maria Carpeaux observa, inclusive, que o teatro espanhol "gozava de uma liberdade que nem o teatro inglês contemporâneo" tinha, abordando temas bíblicos e eróticos com igual desenvoltura. O poeta Manuel Bandeira confirma a observação de Carpeaux ao citar uma paródia do Credo feita por Lope de Vega - que a Inquisição de Toledo teve de proibir, por haver o dramaturgo se autoproclamado o "Onipotente poeta do céu e da terra".

Lope de Vega é contemplado no livro com a publicação de duas peças, Fuente Ovejuna e A Dama Boba. A primeira é sempre lembrada pelos contemporâneos por ser uma crítica à tirania adaptada a qualquer época (o vilão é um comendador que humilha seus opositores e abusa das mulheres). A segunda fala de duas irmãs - uma tonta e outra intelectual -, numa comédia que surpreende o espectador quando a distraída demonstra ser mais sensível e sensata que a culta.

"O volume não esgota o assunto, mas é bastante representativo do Século de Ouro", observa Guinsburg, acrescentando que a escolha desses renovadores da dramaturgia espanhola seguiu o mesmo critério que norteou a tradução de suas peças, cuja métrica e rimas foram conservadas por fidelidade aos dramaturgos do período.

Um dos autores modernos que o editor compara a esses grandes nomes do barroco é o poeta e dramaturgo Federico García Lorca (1898-1936). "O teatro está no DNA de Andaluzia", comenta Guinsburg, que ainda não publicou textos do autor de Bodas de Sangue. Não por preconceito. "Na Perspectiva só não editamos literatura antissemita ou racista." / A.G.F

TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO

Org.: Jacó Guinsburg

Tradução: Newton Cunha

Comentários: Ignacio Arellano

Editora: Perspectiva (816 págs., R$ 100)

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