Livro reúne correspondência de Niemeyer e Sussekind

Muitos são os livros escritos sobrea vida e a obra de Oscar Niemeyer, consagrado há muitas décadascomo um dos grandes nomes da arquitetura do século 20. Épossível dizer que não há um projeto seu, do mais grandioso aomais humilde, que não tenha sido escarafunchado por uma série deespecialistas, críticos, e, sobretudo, admiradores. Mas maisraras são as oportunidades de sentir de perto seu profundoengajamento social e coerência política, como a que está sendodada agora ao leitor com o lançamento de Conversa de Amigos(Ed. Revan, R$ 28, 252 págs.).Na troca de correspondências entre o arquiteto e seuamigo e companheiro de trabalho, José Carlos Sussekind, háevidentemente interessantes comentários acerca de arquitetura earte. Mas predomina de maneira evidente a relação de admiração etroca estabelecida entre o arquiteto e o engenheiro, quecomentam - com uma mescla de otimismo e desânimo - o mundo queos cerca.Com o mesmo cuidado com que faz a projeção dos cálculosestruturais para Niemeyer, Sussekind escreve suas cartas demaneira a provocar Niemeyer, a levá-lo a comentar aquilo quesabe e a dar o seu testemunho - muitas vezes de forma atécomovente - sobre os temas mais variados. Arquitetura veneziana,corte de energia elétrica ou a filial do Guggenheim no Rio (temaque, infelizmente, Niemeyer evita, por não gostar de falar daobra de outros arquitetos), tudo é motivo para que os doisreafirmem suas convicções, e opiniões. "Como você sugere, nãovamos cuidar apenas dos nossos problemas profissionais. Vamosfalar de tudo, Sussekind. Da vida, da política, do ser humano,deste universo que nos humilha e nos encanta."Ao lado da arquitetura - muitas vezes lembrada por meiode casos concretos, como a construção de um museu no Paraná oudo caminho Niemeyer, em Niterói, e principal elo entre os doisamigos -, o eixo central do livro é a defesa incondicional donacionalismo, da necessidade de proteger não apenas a cultura,mas a nação como um todo, do globalismo crescente. Em comum, háainda a paixão pela literatura de Eça de Queirós, a qual voltamcom o mesmo ânimo da juventude.Mas também vai-se construindo ao longo do livro umacrescente cumplicidade entre os dois. Há um evidente fascíniodesses dois homens ilustrados pelo hábito saúdavel dacorrespondência, pelas longas trocas epistolares que já renderamtão belos livros. É bem verdade que a modernidade tirou um poucodo charme desse processo. Em vez da espera do correio, as cartasforam trocadas com a ajuda do fax e, na maioria das vezes, em umintervalo de tempo surpreendentemente curto. Outro fator quecompromete um pouco o impacto das cartas é que os dois também secomunicavam de outras formas (pessoalmente ou por telefone) esão obrigados como que a fazer pequenos resumos do que estáocorrendo fora do livro para os leitores.Mesmo assim, em vários momentos os comentários sobre ostemas de maior interesse dão lugar a pequenas crônicas sobre odia a dia e lembranças afetivas, como o belo trecho em queNiemeyer relembra os últimos dias de Joaquim Cardozo. O poeta eengenheiro, que o ajudou na construção de Brasília, foi, naverdade, o primeiro estopim para a realização desse livro, cujaproposta era, como explicita Sussekind logo na introdução, a deNiemeyer exercitar com ele "o registro escrito que poderia (edeveria) ter sido feito entre ele e Cardozo, 50 anos atrás".Ou os trechos em que falam, com discrição, da vidaprivada. "E me recordava do tempo que passou. Do meu casamento,mais de 70 anos atrás, e Anita, generosa, ainda a me acordartodos os dias para o trabalho. Às vezes finjo estar dormindo,para não lhe tirar o prazer de me dizer, em voz baixa:´Oscarzinho, são oito e meia.´"Outro aspecto interessante do livro é a descoberta deSussekind. Se muitos conhecem a maneira de pensar e o poder desedução de Niemeyer, ele se tornou interessante oportunidade deconhecer o engenheiro que tem em seu currículo obras importantescomo o sambódromo. Por trás da admiração por vezes um poucorepetitiva pelo mestre, que conheceu no final da década de 60,descobrimos pouco a pouco um homem que ainda é capaz de seindignar com os absurdos e misérias que cercam o mundo em plenoséculo 21.

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