Livro retrata história do Brasil na visão dos índios

Contar a História do Brasil na perspectiva dos índios é a proposta do livro Brasil Indígena: 500 Anos de Resistência, de Benedito Prezia e Eduardo Hoonaert. A obra será lançada nesta quarta-feira (08), às 19h, em um evento promovido no Centro Cultural do Hospital Santa Catarina, na avenida Paulista, 200, em São Paulo. "Mostramos onde estava e está o povo indígena ao longo de um período de 40 mil anos", afirmou Prezia. No lançamento da obra, haverá uma exposição sobre a cultura xavante, danças pankararu e músicas guarani, além de palestra sobre a presença indígena em São Paulo. O evento é promovido pela Pastoral Indigenista da Arquidiocese de São Paulo.O livro é dividido em três partes. Na primeira parte, os autores relatam a história dos índios desde os primórdios, mostrando que não existe uma raça superior na América e que os primeiros povoadores do continente foram os indígenas. "Na verdade, a invasão européia é algo bastante recente e foi desastrosa, como uma bomba atômica. Hoje, encontramos alguns sobreviventes dessa hecatombe", disse o autor. Os autores se preocuparam em retratar a diversidade cultural dos povos indígenas nas três Américas, principalmente os grupos andinos, maia e asteca, que mostraram um avanço tecnológico maior. Para descrever os índios brasileiros, Prezia e Hoonaert dividiu os grupos em povos coletores, horticultores de região úmida, horticultores de região seca e povos emergentes.Na categoria povos emergentes estão tribos que buscam se recompor, por intermédio de suas tradições culturais, principalmente. "Eles se localizam nas regiões nordeste e leste do País e mostram que ser indígena, hoje, é uma questão muito mais cultural do que de traços físicos", apontou Prezia. Em São Paulo, há grupos como o pankararu, uma tribo que veio de Pernambuco na década de 50, depois que suas terras foram ocupadas. Há integrantes da tribo em diversos bairros da cidade e em Guarulhos, na Grande São Paulo, que mantêm seus laços organizando cultos e eventos característicos de sua cultura. "A miscigenação vem do século passado, em função da perda da terra e dos laços tradicionais que os uniam, mas apesar de serem mestiços, eles têm as raízes indígenas", afirmou o pesquisador. Há outros 30 grupos que são considerados livres, ou seja, não tiveram contato com povos que não fossem indígenas. "Eles se concentram no sul do Pará, no Amazonas, e em Rondônia, mas acho que não são livres, na verdade vivem acuados no meio da mata", comentou Prezia, que integra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), pertencente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Atualmente, a Fundação Nacional do Índio (Funai) está identificando esses grupos e realizando os primeiros contatos destes com populações não indígenas para imunizar os índios, preparando-os para um contato mais intenso com esses povos. Dessa forma, tentam evitar que sejam afetados por doenças. Na segunda parte do livro, são descritos os últimos 500 anos, a penetração européia, principalmente a portuguesa, dentro das terras brasileiras e os ciclos econômicos, que tanto afetaram os índios do Brasil. Nesta parte também é feita uma análise crítica sobre a intervenção de alguns grupos aliados dos índios, como os missionários. "Ela também acabou sendo desastrosa, pois a prática do aldeamento era inadequada", explicou o pesquisador. Isso porque juntava-se muitos índios em um mesmo espaço, facilitando a propagação das doenças e as práticas de tentar catequizá-los prejudicou sua cultura. "Descaracterizou-se muita coisa, aqueles que tentaram salvar os índios da escravidão acabaram levando-os para um outro tipo de servidão", completou ele. No entanto, o autor ressalta que a prática do aldeamento teve um efeito positivo. "Os índios do Nordeste estão ressurgindo a partir dos aldeamentos dos missionários porque esta foi a única terra que restou de referência para eles", contou ele. Na terceira parte, há uma série de complementos, como uma lista de todos os povos indígenas, classificada de acordo com a língua, uma relação de vídeos sobre o tema, entidades que defendem os índios, 150 organizações indígenas e a bibliografia. Esse livro é uma versão avançada de um outro trabalho de Prezia e Hoonaert, Essa Terra Tinha Dono, lançado em 1989. "Queríamos atualizar esse livro, mas no fim, surgiu uma outra obra. O livro que estamos lançando agora é voltado para um público diferente, para o nível do segundo grau, e conseguimos fazer uma boa pesquisa iconográfica", afirmou Prezia. No começo de 2001, eles irão lançar um terceiro livro, Outros 500, Construindo uma Nova História, que irá relatar os massacres a que foram submetidas as tribos, as mais de 100 etnias extintas, os líderes e mártires indígenas, entre outros fatos. "Na verdade, deveríamos chamar os livros de Holocausto Brasileiro", afirmou o autor.A obra Brasil Indígena: 500 Anos de Resistência foi editado pela FTD, tem 260 páginas e custará R$ 28. "É uma devolução de parte da história indígena e gostaríamos que essas comunidades usassem isso e continuassem a resgatar sua história", concluiu o autor.

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