Livro relembra o 11 de setembro do Chile

Foi um contato telefônico de apenas três segundos, mas o som daquela voz ríspida e impaciente do outro lado da linha ecoa na vida do escritor chileno Ariel Dorfman há quase 30 anos, perseguindo-o como um fantasma. Era um fim de tarde de agosto de 1973 quando ele, assessor informal da Secretaria-Geral do governo, atendeu a um chamado do general Augusto Pinochet Ugarte, que desejava falar com o secretário. Duas semanas depois, no dia 11 de setembro, o militar derrubou a democracia no Chile e instaurou uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina. "O que me deixa mais intrigado é que, em nenhum momento daquele rápido contato, a voz de Pinochet revelava a traição que escondia", conta Dorfman em entrevista ao Estado. "Desde então, sua presença tem me incomodado."Para tentar entender tal perturbação, Dorfman escreveu O Longo Adeus a Pinochet (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 30), um relato que combina crônica política, reportagem e, principalmente, um fino exercício de memória para refletir sobre a ditadura e a conseqüente redemocratização chilena. Seu ponto de partida foi o período em que Pinochet esteve preso em Londres, entre 1998 e 2000, esperando uma decisão da justiça britânica sobre um pedido de extradição feito pelo juiz espanhol Baltasar Garzón, que pretendia julgá-lo por crimes contra a humanidade."Não pretendi oferecer uma visão pessimista, mas otimista da situação, pois, houve avanços desde que Pinochet nos fustigava", comenta. "Não tenho a felicidade de ter um presidente como Lula, mas me consola já não ter mais Pinochet no comando." Com o golpe que derrubou o governo de Salvador Allende, Dorfman foi obrigado a se transferir para os Estados Unidos, onde ainda hoje vive, como professor de literatura latino-americana na Duke University, na Carolina do Norte.E, a distância, sofreu durante os 17 anos da ditadura de Pinochet, que promoveu, segundo dados oficiais, 1.200 desaparecimentos, 3 mil execuções e inúmeros casos de tortura. Apesar da tentativa do juiz espanhol em obrigá-lo a pagar pelos crimes cometidos, o general não foi julgado por apresentar, segundo a justiça chilena, uma insanidade mental, e hoje vive tranqüilamente em seu país, dividindo opiniões entre os que o apóiam e os que clamam por justiça. "Mesmo que não tenha resultado em uma vitória absoluta, foram muitas vitórias parciais. O fundamental foi assegurar que aquilo não se repita mais."Ao longo de sua obra, Dorfman apresenta terríveis relatos de pessoas que sofreram com a brutalidade imposta pela ditadura. Um dos mais contundentes é sobre José Tohá, combativo jornalista que comandou o Ministério da Defesa do governo Allende até três meses antes do golpe. Durante o período, Tohá manteve um fraterno relacionamento com Pinochet, com as famílias inclusive visitando-se mutuamente.Talvez confiando nessa amizade, Tohá se entregou voluntariamente aos revoltosos no dia do golpe, sendo enviado para uma inóspita ilha na região da Patagônia, onde adoeceu gravemente. Desesperada, Moy, a mulher do jornalista, solicitou uma audiência com Pinochet. Depois de meio dia de espera, foi recebida pelo general. Andando de um lado para o outro, tomando água sem parar e gritando continuamente, Pinochet disse que nada podia fazer, pois havia acusações contra Tohá. Em nenhum momento lembrava o homem sorridente que presenteara os filhos do jornalista com soldadinhos de chumbo. "Tudo o que posso fazer é apressar o processo. Vou falar com o promotor para que você tenha facilidades e possa ver o seu marido", limitou-se a responder. Ele não cumpriu a promessa - dois dias depois, Moy foi informada de que Tohá havia se suicidado, enforcando-se com o próprio cinto na cela do hospital militar onde fora confinado. Moy rejeitou a versão oficial ao se deparar com o corpo do marido: em estado extremo de inanição, pesava apenas 49 quilos ao morrer, portanto sem forças para se matar. E, como era mais alto que as paredes da cela, teria sido impossível se pendurar nos barrotes. "Tohá foi assassinado por ter se aproximado demais do general", acredita Dorfman.O escritor ficou indignado também com a notícia de que Pinochet, aos 87 anos, comentara animado que é chegada a hora de retornar ao governo. O militar fez tal afirmação, segundo o jornal La Tercera, durante a última festa de ano-novo. "O que mais incomoda é essa disposição, mesmo na velhice, para continuar fazendo piadas de mau gosto", afirmou Dorfman.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.