Livro recupera texto quase esquecido de Oscar Wilde

Em abril, a exibição de um quadropintado no fim do século 16, retratando um jovem com rostolânguido e longo cabelo entrelaçado, provocou grandes discussõesem Londres. A figura de um rapaz aparentando entre 17 e 20 anos,usando batom e brinco duplo, foi identificada como a de HenryWriothesley, conde de Southampton e mais conhecido como patronode William Shakespeare. O que acalorou as conversas foi aidentificação do mancebo como provável inspirador dos sonetosescritos pelo bardo, nos quais há inúmeras referências a um"jovem loiro", tratado ambiguamente de "senhor-senhora deminha paixão". O livro de sonetos, aliás, publicado em 1609, édedicado a um certo H. W. O assunto vem sendo estudado desde a edição dos poemas,com diversas especulações a respeito desse amor proibido deShakespeare. Mas foi em 1889 que a discussão tomou proporçõesmais sérias, com o lançamento de O Retrato do Sr. W. H.,texto que se situa entre ensaio e conto, que o irlandês OscarWilde (1854-1900) publicou naquele ano. A revolta justificava-sepor uma forte razão: Wilde criou dois personagens que discutem amisteriosa origem de um quadro de um jovem, que acabam deduzindoser o de W. H., ator que se transformou na paixão deShakespeare. Mais que o assunto, o que mais irritou osintelectuais ingleses foi a artimanha de Wilde, que esmiúça apaixão do autor de Hamlet para oferecer à própriahomossexualidade uma explicação superior, espiritual. O Retrato do Sr. W. H., que teve apenas uma versãopublicada no Brasil (em 1994, pela Nova Fronteira), é oprincipal interesse de Os Retratos de Oscar Wilde (280páginas, R$ 35), que a Nova Alexandria lança nesta semana. Ovolume é complementado pela principal obra do escritor,publicada em 1891: O Retrato de Dorian Gray. A especulação sobre o misterioso sr. W. H. foi lançadajustamente no momento em que se valorizavam os esforços paraapagar qualquer vestígio de dubiedade nos sonetos deShakespeare. Assim, a versão que circulava na época excluiu oitopoemas e trocou os pronomes masculinos por femininos em todocaso que levantasse suspeita de amor não heterossexual. Álibi - A obra surgiu quando, aos 35 anos, Wilde játinha publicado a maior parte da sua poesia e dos seus contos.Amargo crítico da sociedade, escritor extravagante, autor defrases maldosas mas lapidares (salões inteiros se esforçavampara não perder uma só palavra de seus lábios), ele utilizou ahistória como um álibi, o que a sociedade vitoriana em que viviaconsiderou provocatória. Segundo Aníbal Fernandes, responsávelpela tradução e autor do prefácio, o texto provocou celeumajustamente pela hipótese leviana de seu teor ambíguo. CitandoFrank Harris, um dos biógrafos do escritor, ele escreve que,"pela primeira vez, Oscar Wilde dava aos seus inimigos a armade que eles precisavam e usaram infatigavelmente e semescrúpulos, com o feroz deleite dos que odeiam". Trata-se de um texto singular, conduzido à maneira deuma ficção policial-dedutiva. "O Retrato do Sr. W. H.coleciona créditos e nega-os depois, deixando sistematicamenteem falso um último elo da cadeia dos fatos", comenta Fernandes."A dúvida e a indecisão garantem a Oscar Wilde o triunfo dapartida." Apontado como uma espécie de rascunho para o queexpressaria depois com uma universalidade única em O Retratode Dorian Gray, o conto/ensaio sobre o sr. W. H. apresenta asprimeiras qualidades que, no futuro, vão ao mesmo tempoimortalizar e condenar Oscar Wilde.

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