Livro recupera o lado histórico de Canudos

O novo livro de Walnice Nogueira Galvão (O Império do Belo Monte, Editora Fundação Perseu Abramo, 128 páginas, R$ 16) é dedicado ao professor José Calasans. Nada mais natural. É apenas o reconhecimento intelectual legítimo àquele que foi o nosso maior especialista em Canudos. Na bibliografia do livro, Walnice lista nada menos que 13 obras de Calasans por ela consultadas. Esse lado "histórico" de Canudos deve tanto a Calasans quanto o seu lado "literário" deve a Euclides da Cunha.Como lembra Walnice, Canudos provavelmente teria sumido na poeira do tempo não fosse a monumental obra de Euclides. Conflitos mais importantes, como o Contestado, foram relegados a segundo plano. Canudos teve seu Homero e por isso ficou e ficará marcado no imaginário nacional. No entanto, a pesquisa histórica sobre Canudos ficou de certa forma obscurecida pelo brilho de "Os Sertões". Essa é a idéia central do livro e paga seu tributo a Calasans, o primeiro a perceber o fato e procurar corrigi-lo, entrevistando sobreviventes do arraial e seus familiares. Muita coisa mudou, novos dados apareceram (como os sermões escritos por Antonio Conselheiro, publicado apenas em 1974) e tudo isso permite hoje uma avaliação mais realista do significado de Canudos.Walnice recorda que o processo de demonização do arraial de Canudos foi lento de deu-se em etapas definidas. As oligarquias rurais hostilizaram Canudos por dois motivos. Primeiro, temeram ficar sem trabalhadores à medida em que os camponeses se juntavam ao Conselheiro. Segundo, quando o contingente de conselheiristas já era significativo, recearam ter suas terras invadidas por eles. Dois medos sobrepostos: medo do êxodo dos trabalhadores e medo da destruição da propriedade.A Igreja também não via com satisfação a crescente influência de Antônio Conselheiro no sertão. Antônio não era um caso isolado. Os padres Ibiapina e Cícero também tiveram problemas com a hierarquia quando o poder que detinham aumentou. O caso do Conselheiro mostrou-se mais complicado pois nem ordenado era. Ibiapina foi proibido de entrar em Sobral, no Ceará, e foi destituído das casas de caridade que fundara. Cícero curvou-se à hierarquia. Antônio Conselheiro manteve atitude de desafio e selou a sorte de Canudos.De maneira nenhuma aquele arraial de maltrapilhos tementes a Deus representava perigo real para a República. Mas o medo da oligarquia, a desaprovação da Igreja e um certo consenso de que os jagunços eram um entrave ao progresso criaram o ambiente necessário para que se declarasse a guerra. Pois foi bem uma guerra que destruiu Canudos. Três expedições, uma a uma rechaçadas, até que a quarta arrasou a cidade. Foram mobilizados entre 10 mil e 12 mil homens, sendo que o efetivo total do Exército brasileiro não chegava a 25 mil soldados. Somente com esse contingente, apoiado por um logística bélica moderna, o governo pôde domar enfim os conselheiristas, que não se renderam nunca.Nada, ou quase nada sobrou. Mas ninguém diz isso melhor do que Euclides: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados."Retomar historicamente Canudos é também desfazer alguns lugares-comuns como o suposto sebastianismo de Conselheiro. Nos sermões de Conselheiro não há menção à volta de dom Sebastião, mas esta pode ser interpretada não literalmente, mas como variante do messianismo, a salvação por um líder messiânico, inequivocamente presente em Canudos. Por outro lado, Canudos não era milenarista, no sentido estrito de que esperaria o fim dos tempos com a chegada do milênio.Enfim, Canudos ainda precisa ser melhor conhecido, para além da forte representação imaginária que mantém até hoje. Basta lembrar um exemplo vindo da etimologia. Havia perto de Canudos um lugar chamado Alto da Favela, pois nele crescia em abundância uma planta com esse nome. De volta ao Rio, os soldados receberam permissão para construir seus barracos em volta da cidade. Batizaram o local de Morro da Favela, lembrando daquele outro, da Bahia. Era gente pobre, que havia combatido outra gente pobre e agora inconscientemente a homenageava.

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