Livro recupera 31 relatos do precioso legado de Kafka

Manter-se fiel à dureza do estilode Franz Kafka, sem floreá-lo, ou embelezá-lo. Essa é aprincipal regra que se impôs o ensaísta, escritor e tradutorModesto Carone, responsável pela tradução da obra de Kafka noBrasil. Mais uma vez, é essa "linguagem pontuda", como ele adefine, que predomina na tradução dessas Narrativas doEspólio (Companhia das Letras, 232 págs., R$ 27).Ficcionista ele também, Carone admite que, depois de 20anos de trabalho com a prosa kafkiana, certas marcas desseestilo ficaram presentes em seu próprio trabalho criativo. Nomomento, ele tem pronta a metade de um livro de contos. "Estoutentando escrever um novo conto, mas está bastante difícil",comenta. Mozart dizia que só escreve música quem tem dificuldadepara escrever música, lembra. "O mesmo pode ser dito a respeitoda literatura: escritor é aquele que tem dificuldade paraescrever e não aquele que escreve facilmente." Carone chegou apassar uma temporada em Praga, a cidade em que Kafka nasceu eviveu, ministrando um curso sobre a recepção de sua obra noBrasil. Recentemente, fez em São Paulo dois seminários sobre oescritor checo, freqüentado, sobretudo, por psicanalistas. Kafkaestá, em definitivo, ligado a sua vida.Há quanto tempo o sr. se dedica a traduzir Kafka?Modesto Carone - Eu comecei a traduzir Kafka por ocasiãode seu centenário do nascimento, no ano de 1983. De início,pequenos contos, para ilustrar um ensaio que publiquei naimprensa. Naquela época, eu estava fascinado com uma novela deKafka, A Construção, e, animado, decidi traduzi-la também, oque me tomou uns três ou quatro meses. Foi uma experiência muitodifícil, mas fascinante, que me deu forças para seguir emfrente.O que o levou a traduzir sistematicamente?Por aquela época, a editora Brasiliense meencomendou uma antologia de narrativas de Kafka. Respondi queantologia eu não faria, mas que me sentia preparado para começara traduzir sua ficção completa. Só agora, quase 20 anos depois,estou chegando ao fim desse projeto que, depois, foi levado paraa Companhia das Letras. Só nessa editora são nove volumes e 11títulos.O que ainda falta a ser feito?Ainda quero traduzir o romance mais conhecidopor América, mas que o próprio Kafka preferia chamar de ODesaparecido. Quem deu o título, "América", foi seu amigoMax Brod e é, sem dúvida, um bom título. Kafka referia-se a esselivro, muitas vezes, como "o meu romance americano" ou, então,"o meu romance de Dickens". É, de fato, uma narrativa deperipécias e cheia de sentimentalismo, à moda de Dickens, umromance, a rigor, pré-kafkiano.E quanto à correspondência, não está em seusplanos?Com exceção da Carta ao Pai, que já estátraduzida de maneira independente e se parece bastante com umromance, as cartas não estão, no momento, nos meus planos. É umtrabalho muito extenso. A ficção já forma mais 1.500 páginas detexto cerrado. Quanto à correspondência, só as cartas a Felice,que Kafka escrevia às vezes três por dia, chegam a mais de 700páginas. Além delas, existem as cartas a Milena, além dacorrespondência aos amigos e outras, mais esparsas, como, porexemplo, a dirigida aos editores. É muita coisa. Eu gostariamuito de traduzir, pelo menos, as cartas a Felice. Elas passarama me impressionar, sobretudo depois que li o célebre ensaio deElias Canetti, que é uma psicanálise notável desprovida dequalquer jargão, na qual Canetti desvenda o homem Kafka pordentro. Se vier a fazer, se tiver tempo e fôlego, eu começariapor aí. E há ainda o Diário, com o mesmo volume de páginas,e que ele escrevia como peça literária.Enquanto as cartas não são traduzidas para oportuguês, que traduções estrangeiras o sr. recomenda ao leitorque não domina o alemão?Quem não puder ler as cartas no original deveprocurar as traduções inglesa e italiana, que são as melhores.Não aconselho a tradução francesa. Os franceses arredondam otexto de Kafka demais, eles encontram em Kafka uma beleza quenão é a beleza de Kafka. Mesmo em Borges, que traduziulindamente Kafka para o espanhol, o que você sente ali é aelegância de Borges e não a beleza de Kafka, que é agressiva,pontuda. Kafka, ele mesmo, dizia, "eu faço literatura parafazer sofrer".Traduzir durante duas décadas umaliteratura escrita "para fazer sofrer" não deve ter sidotarefa fácil.Kafka é pesado, mas tem muito humor. Opróprio Kafka ria muito quando lia os originais de AMetamorfose para os amigos mais chegados, ele chegava a chorarde rir. Os amigos também achavam muita graça em O Processo.O problema é que, mais tarde, o mundo deu razão a Kafka e sualeitura se tornou, por isso, mais difícil. Além do humor, aoriginalidade de Kafka também me ajudou. É uma originalidade tãopatente, é uma vanguarda sem bandeiras, uma coisaadiantadíssima. Nenhum autor contemporâneo é realmentecontemporâneo se não passou pela leitura de Kafka.Qual é a maior dificuldade técnica na tradução deKafka?A principal dificuldade é acompanhar o contornode suas frases, que são muito sinuosas e que, de alguma maneira,fazem o diagrama do labirinto em que o personagem se perde. Alémdisso, o narrador kafkiano, em vez de onisciente, é, comocostumo dizer, "insciente". Ele não sabe de nada, desconhece oque lhe sucede e te leva, também, à insciência, à absolutaignorância. A um tal rebaixamento que a narrativa fica muitoobscura. André Gide disse que há uma colisão entre atransparência da linguagem de Kafka e a obscuridade daquilo queé transmitido por ela. Essa é, talvez, a maior dificuldade paraum tradutor. Por outro lado, tudo é narrado num determinadoponto de vista. Há sempre, então, uma trajetória do olhar quedeve ser acompanhada e é indispensável para que se conserve aintegridade do texto. E há ainda a exatidão da linguagem, que émuito dura. E você tem de respeitá-la. Tudo em Kafka éintencional, ele é um autor muito singular.Em que medida a experiência de traduzir Kafka oinfluenciou como escritor?Em meus primeiros livros de contos, useiclaramente a sintaxe de Kafka. Por exemplo, adotando um excessode partículas expletivas, isto é, palavras que, se você asretirar, o sentido não é prejudicado, mas que dão um peso muitopeculiar ao texto. Há um recheio na frase kafkiana quecontaminava as minhas frases. Além disso, a visão sombria dascoisas e um certo tipo de humor também aparecem no que escrevi.Em A Metamorfose, há um momento em que o inseto sorri, masvocê já pensou o que é esse sorriso? Há o contraste entre alinguagem burocrática, de protocolo, e a coisa narrada, que éabsurda - um absurdo verdadeiro, mas absurdo.Kafka parece, de fato, extremamente atual.Sim, essa atmosfera kafkiana corresponde ànossa falta de noção da totalidade do mundo. Já para Kafka, elaera um expediente literário que foi internalizado na obra pararefletir o mundo externo. Atmosfera que prossegue em nosso mundoexterno de hoje. Veja, por exemplo, a Internet, um universoextremamente ordenado no qual, no entanto, você caminha àsapalpadelas.Os relatos reunidos em "Narrativas do Espólio"são tão secos e surpreendentes que se parecem, muitas vezes, comrelatos de sonhos.Kafka trabalhava muito com os sonhos, e muitosdesses contos parecem, de fato, anotações de sonhos. Kafka foileitor de Freud, ele sabia das coisas. Estava sempre atento aomundo intelectual que o cercava. Foi em Praga que Einsteincomeçou a desenvolver a teoria da relatividade e, nesse período,Kafka assistia a suas aulas e seminários. Walter Benjamincompara o estilo de Kafka à lógica da física nuclear. Quer dizer, ele foi um homem ligado a seu tempo.

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