Livro recupera 30 anos do Ballet Stagium

Tudo começou em outubro de 1971. Marika Gidali e Décio Otero resolveram organizar um grupo de dança que tivesse a preocupação de ter idéias e mostrar a diversidade cultural brasileira, sem esquecer as questões sociais. Nascia assim o Ballet Stagium, uma companhia distante do mundo das fadas, proposto pelo balé clássico, e profundamente comprometida com a realidade do País. Uma companhia que resiste bravamente há 30 anos e comemora seu aniversário com uma série de atividades até o mês de novembro e com o lançamento do livro "Marika Gidali, Singular e Plural" (Ed. Senac, 198 págs.), escrito por Otero. "Estamos completamente enlouquecidos com a quantidade de coisas que precisamos organizar: temos a estréia de uma peça feita para o Projeto Joaninha; Décio está criando uma nova coreografia para a companhia, ao mesmo tempo que compõe a trilha sonora - e pela primeira vez. Fora as apresentações que faremos em parceria com o Sesc pelo Brasil", diz Marika. Eufórica com o aniversário, a diretora falou de seu escritório, em meio às fantasias que estão sendo feitas por eles mesmos e uma agenda repleta com ensaios e apresentações. "Estou até tonta", brinca Marika. Não é para menos. Na terça-feira será o lançamento de um CD-ROM organizado pela pesquisadora Cássia Navas, da Rede Stagium, com a supervisão do Sesc e apoio da Secretaria de Estado da Cultura, no Sesc da cidade de São Carlos. O projeto foi feito a partir de um levantamento de dados de coreógrafos, companhias e bailarinos e traz informações sobre a história da dança. Lançamento - Um outra contribuição importante para a cultura é a publicação do livro "Marika Gidali, Singular e Plural". Em um país que investe pouco na pesquisa e que possui parca bibliografia sobre dança, essa iniciativa merece destaque. "O livro traça um panorama da história da dança a partir de Marika, uma personagem de destaque nesse cenário", conta o autor. Na obra, Otero faz um retrato de sua companheira e tem como pano de fundo fatos históricos e situações alinhavadas com a vida dela. Ele estabelece um diálogo que aproxima o leitor dos personagens. A narrativa é construída com lembranças, fatos, dados, textos e críticas publicados na imprensa e depoimentos. O livro começa com Marika ainda menina, quando enfrentou os horrores do nazismo em um orfanato em Budapeste. Filha de uma família judia, esse foi o meio que sua mãe, Elizabeth, encontrou para proteger as crianças. Décio conta a infância na Hungria, em um primeiro momento distante de seus pais, e com o término da guerra, a família recomposta e a reconstrução. A mesma força que Marika teve na infância a acompanha em sua trajetória. Mulher de personalidade vigorosa, domou a natureza e provou que poderia ser uma bailarina sim, ao contrário do que haviam lhe dito. Era possível adaptar seu corpo - considerada baixa e a curvatura de seu pé não era a ideal - ao balé, com muita disciplina. A vontade de dançar e a facilidade para a ginástica transformaram a menina de 13 anos na "estrela do clube húngaro". O ingresso na Ballet do IV Centenário marcou o início da carreira profissional. Uma carreira marcada pelo pioneirismo, a começar pela ligação com o teatro. "Eu não separo dança de teatro. Para mim, as duas vertentes andam de mãos dadas." Atuou em dez peças com Ademar Guerra. Também não nega sua passagem pelo chá-chá-chá. Mas a grande influência foi, sem dúvida, Maurice Béjart. O coreógrafo serviu de inspiração para uma mudança de rumo. Mais para uma atitude de vanguarda: a criação do Ballet Stagium. Diz Sérgio Viotti: "Sem dúvida, a contribuição mais importante que o Stagium deu à dança foi dançar o Brasil. Os tablados onde dançaram se tornaram mais brasileiros, e nós também, assistindo ao Stagium." Colocar o Brasil como o centro das coreografias, o comprometimento com questões sociais e com a educação são propostas presentes até hoje na companhia. Aqui está a face plural de Marika e de todo o Stagium. A resistência é a melhor marca do grupo. A convicção desse casal auxiliou a superar a ditadura, a falta de apoio e a falta de patrocínio. "Marika Gidali, Singular e Plural" é o relato de uma obstinada luta pela dança, que continua até hoje, na versão do Projeto Joaninha, que ensina dança para meninos e meninas da periferia, com a ação que leva a dança de rua para as unidades da Febem ou ainda com intervenções no Hospital das Clínicas. O livro será lançado dia 22 na Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073). A estréia da nova coreografia, de uma exposição e o lançamento de um documentário feito por Edgar Duprat estão marcados para novembro. "A emoção é muito grande, não somente pelos 30 anos, mas por toda a história que estamos construindo."

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