Livro recria fazendas e mulheres do Pantanal

Ellen Bromfield Geld, que estará na quinta-feira na 10.ª Bienal Internacional do Livro, no Rio, é uma escritora brasileira em inglês. Pelo menos é o que ocorre no romance Mulheres de Contendas, que se passa no Pantanal e acaba de ser publicado pela Geração, num volume de 430 páginas. Como seus outros oito livros, esse também foi escrito em inglês, mas, ao contrário dos demais, a primeira edição sai em português traduzido por Ludmila Elias e Eduardo Francisco Alves. Já que a temática do novo livro é brasileira - história de fazenda e mulheres fortes -, Ellen diz que lhe agrada a versão, pois estaria mais afinada com personagens e episódios do que seu idioma natal.Ela está acostumada com esses desacordos aparentes. Desde 1953, quando veio para cá, casada com o agrônomo Carson Geld e com um filho (tem 5 e 12 netos), tem tido uma vida tríplice, dividindo-se como fazendeira, dona de casa e escritora.São hábitos familiares que ela trouxe dos Estados Unidos para o Brasil. Filha do escritor Louis Bromfield, autor de Noite em Pequim, ganhador do Pulitzer, Ellen seguiu o exemplo do pai, tanto na vocação literária quanto na de fazendeira e apaixonada por paisagens diferentes daquela que conheceu nos Estados Unidos, para onde foi criança. Histórias de seu pai se passam na Índia, mas ele vivia com a família na França e foi lá que ela nasceu em 1932 e viveu até a decisão do retorno ao país de origem, motivada pela guerra.Bromfield gostava de agricultura, comprou uma fazenda em Ohio e deu início a um projeto de plantio organizado, ainda pioneiro, que atraía a atenção de pessoas em diversas partes do mundo, até mesmo o Brasil, que ele visitou algumas vezes. Era a Fazenda Malabar.Ocorreu que o paulista Manuel Carlos Aranha estava preocupado com a situação da lavoura no Brasil, voltada para a monocultura, enquanto o aumento da população e a tendência universal à urbanização acendia o alerta para que se incrementasse a produção de alimentos. No ano de 1953 ela acabou vindo para cá, com Carson, a fim de participar da réplica brasileira da Fazenda Malabar, em Vinhedo, que depois de muita luta virou apenas história, enquanto a de Ohio se tornaria um parque estadual.Carson foi contratado para dirigir uma fazenda da Anderson Clayton em Bauru, onde passaram vários anos até o fim da experiência. Foi então que compraram a área em Tietê, também interior paulista, onde instalaram a Fazenda Pau d´Alho (título de um de seus livros, publicado aqui pela Melhoramentos, assim como Estranhos no Vale), hoje dedicada à pecuária e à produção de feno. Com o mesmo dinheiro daria para comprar uma área muito maior no Pantanal, mas como isso acabaria implicando a separação dos filhos, optaram por São Paulo. Seu pai lhe dera uma dessas dicas que devem ser percebidas antes que seja tarde: o fundamental é fazer o importante para seu coração, se também der dinheiro, muito bem.Com tanto tempo de Brasil, inclusive 25 anos de colaboração no Estado, leitura de Machado de Assis e Guimarães Rosa (dos norte-americanos ela prefere os sulistas, pela originalidade, pela força da literatura de Faulkner, também de Thomas Clayton Wolfe, autor de Look Homeward, Angel, etc.), ela se sente à vontade para tratar de assuntos locais na sua ficção. Amiga da família Rondon, sempre teve laços com Mato Grosso, decidiu que a nova história se passaria por lá, nessa região-santuário em que exploração econômica deve seguir regras muito estritas para evitar a devastação, isto é, o desastre ecológico a prazo ou à vista.Como sempre fez, durante os quatro anos exigidos para a conclusão do livro, ela dedicou quatro horas do dia a redigi-lo, observando que hoje as coisas estão mais fáceis, ao lembrar que os primeiros romances foram escritos à mão, depois à máquina e, agora com o computador - viva a alforria!O romance surgiu de sua observação da mulher brasileira, de acordo com seu ponto de vista tradicionalmente muito atuante nos bastidores, pois não podia ocupar a linha de frente. Atuante e muitas vezes tão protetora que transforma os homens em eternos "moleques": "Veja os nossos congressistas", diz com o sorriso irônico e esperto de quem sabe o que diz.A história gira em torno do problema das terras que Veridiana herdou com título de propriedade falso e se tornam alvo de disputa constante. Veridiana, como diz a autora, age como poderosa iminência parda: "A matriarca entende que o mundo dos homens em que vive não aceita abertamente o controle de uma mulher. Portanto, apesar de nenhuma decisão ser tomada sem sua participação, ostensivamente, são seu filho, Manoel Tavares, e seu genro Juca Cabrera, quem comandam a enorme fazenda." A fibra da matriarca transfere-se para a neta Jacyra, que desde a infância acompanha e ao mesmo tempo começa a fazer parte da saga.Na apresentação, José Mindlin observa que, embora tenha quatro livros centrados aqui, a maioria dos leitores de Ellen estão nos EUA, na Alemanha, na França, Suécia, Holanda e Dinamarca. Para o apresentador, trata-se de uma autora "daquelas que quase não existem em nossa terra: alguém que sabe contar com vigor e elegância uma história cheia de vida, aventura e emoção". Isso faz lembrar o entediado Alain Robe-Grillet. Certa vez, disse, ao visitar o Brasil que tinham inventado o noveau roman na França por falta de assunto, enquanto por aqui o problema era o excesso de assunto. Embora muitos escritores não percebam. Mulheres de Contendas vem pronto para novela e filme. Diz Mindlin:Saga latina - "A mulher é o centro da vida e da ação, que transcorre na paisagem violenta e exacerbada do Pantanal brasileiro. Conflitos pela terra, tráfico de drogas, assassinatos e, pairando sobre tudo, a vida de uma plêiade de matriarcas que assumem e cuidam da fazenda como se estivessem gerindo a própria vida.O tom lembra o daquelas inesquecíveis e épicas sagas latino-americanas. O resultado é uma epopéia no decorrer da qual vão se desenhando, contra um fundo de longas luzes crepusculares algumas personagens de enorme quilate humano."

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