Livro rastreia a presença do cachorro na literatura

Em março, a artista Tracy Emin espalhou cartazes por Londres informando que seu gato, Docket,se perdera; seus vizinhos, contudo, acharam que era umamanifestação de arte contemporânea e os levaram para casa. Agorauma história local: num movimentado cruzamento de São Paulo, umcatador de papel, sujo como lhe exige a profissão, vira-se parauma cadelinha e diz: "Quero ver se essas pulgas continuam amachucar você..." Abre uma sacolinha, tira um talco, espalha-oalegremente e os dois riem - o homem tradicionalmente, acachorra com o rabo -, cheios de felicidade. O cão humaniza ohomem - ou o contrário?De fato, não parece haver nada mais humano que ocachorro. Quem sabe apenas a literatura e a filosofia possam sepretender tão amigas do homem. Mas um pequeno livro, do francêsRoger Grenier, Da Dificuldade de Ser Cão (Companhia dasLetras, 144 págs., R$ 23,50), recém-lançado, mostra que há, sim,uma relação profunda e absoluta entre todos eles: cães, gatos,homens, livros e idéias formam uma turma que está junta já fazmuito tempo: é o grupinho da civilização."Os cães estão tão presentes na literatura, desde assuas origens, que concluí que valeria a pena passear por todosesses livros que falam deles", disse Grenier, já octagenário, àreportagem. Seu livro, escrito sem nenhum rigor, como lhepermite a idade, reúne uma série de historietas da relação degrandes escritores e filósofos com os seus animais. Sartre,Voltaire, Goethe, Freud, todos eles tiveram seus cães, reais eabstratos, que os divertiram e os fizeram pensar. São tantos osnomes, que só se pode lamentar a ausência de um índice remissivoque não chega a ser suprida pela lista dos livros citados.Um dos casos mais anedóticos contados por Grenier é o deJacques Brenner, que escreveu um livro revendo todos oscritérios que anteriormente utilizara para julgar as obras dearte. Defendeu, então, em um livro, chamado Discurso em Favordos Cachorros, a adoção de um só parâmetro: o tratamentodispensado aos animais.Grenier parece trilhar pelo mesmo caminho, pelo menosnesta obra, e escreve em dado momento: "À medida que escrevo,começo a considerar meu livro sobre cães como um encontro depessoas que amo. Não tenho vontade de convidar os outros aparticipar. Wagner bem que tenta nos comover com a perda de seudinamarquês; Céline, relatando a morte de sua cadela Bessy, maseles nada têm a ver conosco."Céline e Wagner, criadores geniais, tiveram seus nomesligados às posições políticas de extrema direita e anti-semitas.Não, não foram humanizados pelos animais, é o que defende oautor. Um dos grandes amigos de Grenier, que faz parte dapaisagem literária francesa desde os anos 50, foi Albert Camus,autor de O Estrangeiro."Devo muito a ele; ao final daguerra, me fez jornalista, me engajando no jornal Combat;depois, me fez escritor, publicando meus primeiros livros; suaamizade me faz muita falta", conta Grenier."Para nos restringirmos a nosso assunto, quando nãotinha onde deixar minha cadela Sarrigue, depois da guerra, ele aabrigou", lembra o escritor.O mais conhecido cachorro literário é também um dos maisantigos: Argos, o fiel amigo do herói Ulisses da Odisséia.Enquanto Penélope usava de subterfúgios para evitar um novocasamento, durante a viagem do rei de Ítaca, Argos, velho emaltratado, coberto de carrapatos, foi capaz de reconhecer ohomem que chegara disfarçado a sua terra."Reconhecendo Ulisses no homem que chegava, agitou acauda e baixou as duas orelhas: faltaram-lhe forças para chegaraté onde estava seu senhor", escreveu alguém atualmenteconhecido como Homero.Ulisses, aliás, é o nome do cão de Grenier que dá nomeao livro, em sua versão original. A explicação de Grenier para aescolha: "Os cães de raça, como os cavalos de corrida, devemter um nome que comece com uma letra que muda todo ano; era oano dos us." O romancista pensou, então, em chamá-lo de Ubu -"Mas alguns amigos do Colégio de Patafísica me disseram que nãoera respeitoso! Então, escolhi Ulisses, até porque combinavamuito com ele."

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