Livro oferece visão panorâmica da obra de Beckett

Um estudo, sem par em território nacional no que diz respeito à abrangência, sobre a obra de Samuel Beckett, já pode ser encontrado nas livrarias. Samuel Beckett: Escritor Plural (244 págs., R$ 30), da especialista Célia Berrettini, acab de ser lançado pela Perspectiva. Mais conhecido no Brasil por sua extensa e importante obra teatral - Esperando Godot, Fim de Jogo, A Última Gravação de Krapp e as pantomimas Ato sem Palavras I e II estão entre as mais representadas em palcos nacionais - o poeta, escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) escreveu com igual êxito peças e poemas, novelas e romances, ensaios sobre literatura e pintura, peças radiofônicas e para televisão.Professora titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, com doutoramento na França, Célia Berrettini há muito vem escrevendo artigos sobre Beckett, muitos deles para o Suplemento Literário do Estado. Em 1977, lançou, pela mesma editora, A Linguagem de Beckett, estudo no qual focaliza basicamente a dramaturgia becketiana. "Há anos o editor Jacó Guinsburg (responsável pela Perspectiva) vinha solicitando uma atualização daquele livro. Afinal, Beckett viveu muito e escreveu muitas outras peças depois da publicação. Mas achei mais interessante ampliar para uma visão panorâmica de sua obra, incluindo agora romances e ensaios." Além da abrangência do estudo, e dos sólidos conhecimentos da autora, o texto propicia leitura fluente e agradável. Clareza é qualidade nem sempre presente em estudos teóricos dessa envergadura. A primeira parte do estudo aborda a vida pessoal do autor e o reflexo disso em sua obra. Ao tratar da formação de Beckett e de suas primeiras manifestações artísticas, ressalta a convivência com o escritor irlandês James Joyce, seu amigo pessoal, e analisa como o conseqüente desejo de livrar-se dessa influência o levará a revolucionar a narrativa. Especialmente interessante, nessa primeira parte, é a análise dos ensaios assinados por Beckett sobre a pintura dos holandeses Abraham e Gerardus van Velde, reveladores, como mostra Berrettini, de sua busca estética. Analisando em pormenores ensaios, peças, novelas e romances, a autora destaca as constantes da obra becketiana, como a irremediável solidão do homem sobre a Terra e seu lento e agônico caminhar para morte, desde o nascimento. Mas, sobretudo, revela, passo a passo a evolução dessa arte, que tende para o silêncio, não pelo simples descrédito do poder das palavras, mas por uma busca original e rigorosa de expressão estética.

Agencia Estado,

17 de agosto de 2004 | 11h15

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