Livro narra bastidores do do descobrimento do Brasil

Autor se baseia em novos estudos para reexaminar episódio

Elias Thomé Saliba,

31 de agosto de 2012 | 19h30

No decorrer do famoso debate sobre mito geopolítico da "Ilha Brasil", entre Jaime Cortesão e Sérgio Buarque de Holanda, em 1952 - parte desse debate ocorreu nas colunas do Estado no mesmo ano de 1952 - , os historiadores reconheciam que insistir apenas na polêmica entre o acaso ou a intencionalidade na descoberta do Brasil era continuar a ingrata tarefa de encerar defuntos. De lá para cá, com a extraordinária internacionalização da pesquisa histórica e a multiplicação de novas pesquisas a historiografia especializada avançou tanto no assunto que ficou quase impossível acompanhar. O principal mérito de Roberto Lopes em 1500-1501, A Intriga do Descobrimento é abordar o tema sem perder de vista os estudos mais recentes, sintetizando a maior parte de suas revelações numa narrativa acessível a todos os leitores.

Portugal já não assinou o Tratado de Tordesilhas ciente da informação de que o litoral brasileiro estaria dentro de sua esfera de influência? Em nome dos segredos de Estado em relação à expansão dos seus domínios, teria o rei de Portugal efetivamente desprezado a descoberta feita por Cabral da Ilha de Santa Cruz? Com algumas dessas hipóteses contrafatuais - todas bem fundamentadas no cenário da grande aventura das navegações nos séculos 15 e 16 -, Lopes conduz o leitor para o interior da política de sigilo, perpetrada sobretudo por d. Manuel I, o Venturoso, que, no decorrer da narrativa, transforma-se em d. Manuel, o Ardiloso. Como parte dessa política de sigilo, Portugal decidiu restringir com rigor a circulação dos documentos que pudessem servir a uma potência europeia rival ou cair nas mãos de algum eventual inimigo, de dentro ou de fora da Europa.

Mesmo assim, a novidade dos "achamentos" acabou vazando. Aqui, Lopes retoma as histórias de todos aqueles aventureiros, navegadores, cartógrafos, fidalgos - notáveis ou falidos - enfim, de todos aqueles que, seguindo seus interesses nacionais, deslocavam caprichosamente os obscuros limites do Tratado de Tordesilhas.

O autor mostra que hipóteses contrafatuais em História só funcionam numa narrativa amplamente fundamentada em fontes e em passagens citadas dentro de um contexto - as duas abertas a um reexame diligente e ao escrutínio público.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

1500-1501, A INTRIGA DO DESCOBRIMENTO

Autor: Roberto Lopes Editora: Discovery Publicações

(144 págs., R$ 29,90)

 

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