Livro mostra São Paulo na 2ª Guerra

Enquanto soldados do mundo todo lutavam na Europa, em São Paulo a população enfrentava filas para comprar alimentos, comia "pão de pobre" e andava em veículos movidos a gasogênio. Isso é quase tudo de que o paulistano se lembra da 2ª Guerra Mundial, principal episódio da história do século 20. "A guerra não está presente na memória de São Paulo", diz o historiador Roney Cytrynowicz, autor do livro Guerra sem Guerra, que mostra o dia-a-dia da cidade naqueles anos de horror. "Ela não é celebrada coletivamente, não é lembrada." Ao contrário da Revolução Constitucionalista de 32, tratada como o maior acontecimento da história da cidade, não há, em São Paulo, monumentos, nomes de ruas ou eventos cívicos referentes à participação do Brasil na 2ª Guerra. O Obelisco do Ibirapuera, a Avenida 9 de Julho, a 23 de Maio - tudo lembra a Revolução de 32. Por que a memória da guerra é tão ausente do cotidiano ou lembrada em tom de deboche é uma das questões levantadas pelo livro. "É estranho porque, afinal, foram enviados 25 mil soldados!" Para o historiador, deve-se dignificar a participação dos soldados na luta contra a Alemanha nazista. "Muitos morreram e isso não tem nada de engraçado." Cytrynowicz acredita que a falta de referências à memória da guerra na cidade deve-se à associação feita entre a participação do Brasil no conflito e a ditadura de Getúlio Vargas, à qual as classes médias e as elites paulistas se opuseram. Para saber o que ocorreu em São Paulo de 1939 a 1945, o historiador pesquisou em livros, jornais, revistas e boletins da época, documentos e leis do governo, letras de música e partituras, filmes, crônicas, receitas, histórias em quadrinhos e até embalagens de pão e diários de pessoas anônimas. Diário - Em 6 de setembro de 1939, uma quarta-feira, cinco dias após o início da guerra, a estudante Mina Mutchnik, então com 14 anos, começou o seu diário. No meio de muitas páginas manuscritas, o historiador encontrou o registro de que a guerra havia começado "na Europa, entre a Alemanha e a Polônia". Apenas uma frase, "em tom neutro e descritivo". Em seu livro, originalmente uma tese de doutorado em história social realizada na Universidade de São Paulo, Cytrynowicz mostra o impacto da guerra na cidade e como ela foi percebida pela população no dia-a-dia. Segundo observou, predomina na memória "um registro leve e divertido na lembrança das filas, que privilegia pequenas histórias do cotidiano em torno da escassez, `causos´ e estratégias para burlar as restrições à venda, como os padeiros amigos que entregam pão por fora". "Mesmo quando se conta da falta de produtos (os mais lembrados são pão, sal, açúcar, carne e combustíveis) e dos exercícios de blecaute, inexiste, como padrão geral, qualquer tom mais dramático que remeta a um registro de privação absoluta e jamais a escassez atinge a dimensão de fome", assinalou Cytrynowicz. Pão integral - Como faltava farinha de trigo, o governo lançou um "pão de guerra", integral, mais barato e escuro. Acostumada ao pãozinho francês, a população rejeitou-o. Também foi lançada a sopa de guerra e estimulado o plantio da "horta da vitória". "Mas a escassez do pão não significou fome." Segundo ele, um dos efeitos da guerra foi a repressão aos imigrantes japoneses, que chegaram a ser expulsos de Santos e de bairros de São Paulo, proibidos de ensinar e falar japonês. "Isso provocou uma violenta desestruturação da comunidade nipo-brasileira." Gás pobre - Já nos transportes urbanos, o impacto da guerra foi mais forte porque havia dificuldade em importar combustíveis. Diz o historiador que, na década de 20, a Câmara chegou a discutir o projeto de um metrô, que foi rejeitado. O modelo da cidade privilegiava o transporte privado. Segundo ele, a escassez trazida pela guerra acirrou as contradições de uma cidade excludente socialmente. Como faltou combustível, o governo incentivou a produção do gasogênio, equipamento que ia acoplado aos carros e ônibus e era movido a carvão vegetal. A adoção do gasogênio não foi tranqüila. "As pessoas achavam feio, que não era chique e tirava a potência do automóvel", diz. "Isso mostra que não havia espírito de mobilização." "O uso do gasogênio, o `gás pobre´, diante de um estridente alarme de que a cidade e a indústria sofreriam uma paralisação, em 1944, tornou-se um grande símbolo da engenhosidade e da preparação coletiva paulistana para a guerra", explica Cytrynowicz em seu livro. "Ao mesmo tempo, negociavam-se exceções nos horários restritivos à circulação de automóveis para ir a festas e sessões noturnas de cinema", revela. "Os anúncios de publicidade ressaltavam prioritariamente a elegância do gasogênio e uma competição esportiva no autódromo de Interlagos, em pleno 1944, tornou o piloto Chico Landi um verdadeiro herói brasileiro, que venceu as limitações impostas pela guerra", informa o historiador.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.