Livro mostra poesia e humanidade da arquitetura

Paulo Mendes da Rocha não é apenas um dos maiores da arquitetura nacional. Como mostra o livro Paulo Mendes da Rocha, que será lançado neste sábado na Pinacoteca do Estado, ele é também um dos poucos arquitetos brasileiros preocupados com o aspecto humano e poético de sua profissão. Como escreve Edemar Cid Ferreira no prefácio da publicação, "quando desenha uma casa, Paulo Mendes da Rocha é um urbanista; quando restaura um edifício, é crítico de arte; quando discute os problemas da cidade, revela-se um agudo cientista social".A obra, organizada por Rosa Artigas e editada pela Cosac & Naify, apresenta um dos projetos mais relevantes de sua carreira. Mas os organiza de forma bastante particular. Em vez de adotar apenas o critério cronológico ou a separação entre projetos não realizados e obras concluídas (o que poderia facilitar a leitura para os leigos), eles foram organizados em três grandes capítulos, que resumem em linhas mestras o pensamento arquitetônico de Mendes da Rocha.No primeiro deles, intitulado América, Arquitetura e Natureza, estão suas concepções mais ousadas, aquelas que traduzem uma visão quase utópica da arquitetura. Não é à toa que a grande maioria delas não saiu do papel. Ele adota então uma linguagem poética que se cola à obra como se fizesse parte dela.Com um otimismo contagiante, Mendes da Rocha vê maravilhado as inúmeras possibilidades de construção numa natureza nova, intocada como a americana, contrapondo essa situação com o engessamento da tradição européia. "Nossos olhos se voltam para a idéia de construir as cidades americanas na natureza, estabelecendo novos raciocínios sobre o estado das águas, das planícies e das montanhas, a espacialidade de um continente, novos horizontes para nossa imaginação quanto à forma e o engenho das coisas que haveremos de construir", escreve.Entre esses fantásticos encontros entre a arquitetura e a natureza idealizados por Mendes da Rocha está um fascinante projeto para Vitória. A partir da necessidade de realizar um estudo urbanístico para revitalizar o porto de sua cidade natal, o arquiteto capixaba idealizou uma espécie de cidade sobre as águas, uma espécie de Veneza vertical e contemporânea.Nem só projetos para o novo mundo estão incluídos neste primeiro rol. Estão também elencadas importantes participações em concursos internacionais, como aqueles para a Biblioteca de Alexandria (Egito) e para o Centro Cultural Georges Pompidou, em Paris.Na segunda parte, que começa com o texto Genealogia da Imaginação, o arquiteto disserta sobre a necessidade de fundir técnica e arte, entre a fantasia e a realidade possível. "É preciso desatar o nó da divisão esquizofrênica entre arquitetura e urbanismo, entre arte e técnica, arte e ciência", afirma. Neste capítulo estão reunidas algumas das grandes realizações de Mendes da Rocha, como o ginásio do Clube Paulistano, que lhe valeu o Grande Prêmio da Bienal de São Paulo, o Museu Brasileiro de Escultura e a reforma do prédio da Fiesp.Dois outros projetos de sua autoria na área cultural estão na terceira e última parte, A Cidade para Todos. São eles a reforma da Pinacoteca do Estado - onde será lançado o livro e que lhe valeu recentemente o prêmio Mies van der Rohe de arquitetura latino-americana - e a transformação da antiga sede do Museu de Aeronáutica na Oca, no Parque do Ibirapuera, prédio que abriga a mostra de arqueologia e artes indígenas da Mostra do Redescobrimento. Com maestria, ele consegue tirar o melhor proveito de obras projetadas por outros mestres, como Ramos de Azevedo (Pinacoteca) ou Rino Levi (Fiesp).Neste último segmento, Mendes da Rocha toca num ponto essencial para a compreensão de sua obra, ao afirmar que, para ele, "a primeira e primordial arquitetura é a geografia".Ao observar esse livro nota-se que seu trabalho é marcado por um profundo respeito pela paisagem. Se algumas vezes os memoriais dos projetos são excessivamente técnicos para o público leigo, esse passeio pelo universo criativo permite que se tenha uma compreensão sensorial e quase afetiva de sua obra. Suas concepções são ousadas, mas sempre se insinuam, dialogam e buscam tirar proveito do cenário, em vez de se impor artificialmente. Serenidade e silêncio são dois adjetivos que cabem a sua obra.Para ele, o projeto deve ser visto "como um lugar, um mirante, de onde se pode ver a realidade, antes de tudo como uma projeção futura".Paulo Mendes da Rocha. Textos de Paulo Mendes da Rocha e memoriais de Guilherme Wisnik. Organização Rosa Artigas. Cosac & Naify. 240 páginas. R$ 85,00. Amanhã (26), às 11h30. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844.

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