Livro mostra o que é ser DJ no Brasil

Um mundinho despolitizado, alienado, hedonista, construído a partir de ações circulares entre amigos - você fala do meu babado, eu elogio o seu? Ou um mundinho de sentido estético, de militância racial e de luta pelas liberdades sexuais e comportamentais? Qual dessas visões você tem do universo do DJ e do povo da noite? A jornalista Claudia Assef resolveu não embarcar em versões e foi à luta. Pesquisou durante quatro meses, fez cerca de 120 entrevistas e mergulhou em arquivos particulares para escrever Todo DJ já Sambou - A História do Disc-Jóquei no Brasil (Editora Conrad, 260 págs., R$ 25). O resultado é um levantamento histórico precioso, no Brasil, da evolução desse personagem que conduz a ´música mecânica´ no coração do mundinho: o DJ. Claudia começa pela pré-história e chega a localizar um dos avôs de todos os DJs do País, Osvaldo Pereira, que criou nos anos 50 a inacreditável Orquestra Invisível Let´s Dance, numa era anterior à explosão do samba-rock. Dos tempos em que cavalheiro pagava Cr$ 60 e as damas pagavam Cr$ 40 no clube Pérolas Negras, em Santana, à grande multiplicação dos clubbers, está tudo ali. Leia abaixo entrevista com a autora.Notei que seu livro não tem bibliografia. Você não se escorou em nada preexistente? Claudia Assef - No Brasil, os livros que consultei foram pouquíssimos, até porque não havia nada que tivesse como foco principal o DJ. Li o Noites Tropicais (de Nelson Motta), que dá uma pincelada nas boates do Rio. Mas o que valeu mesmo foram as entrevistas feitas com o próprio Nelson e com outros DJs cariocas. Além disso, dei pinceladas nos livros do Hermano Vianna (sobre funk carioca), no A Periferia Grita (sobre hip hop, de Janaína Rocha) e tirei uma frase do Tutinha do Jovem Pan, a Voz do Rádio, que está creditada abaixo da própria citação. Não dei crédito para esses livros porque entrevistei todo mundo que estava citado neles. Muita inspiração veio com a leitura do Last Night a DJ Saved My Life, que eu considero uma bíblia. São Paulo fala mais forte na sua pesquisa. Não tem receio de cobrarem uma amostragem mais abrangente? Não. São Paulo serviu como base, ponto de partida para a feitura do livro porque foi aqui que muitos movimentos começaram. Mas, quando falo da disco, por exemplo, a estrela é o Rio, porque foi lá que o bicho realmente pegou. Desde a compra de discos, os grandes DJs como Ricardo, Amândio, os empresários, todo o glamour rolava por lá. No mais, dou uma passada geral por nomes lendários de DJs de todo o Brasil, desde o amazonense Raidi Rabello até o Robinho, ídolo em BH. Mas não tive a pretensão de fazer um documento definitivo, fechado, sobre o DJ brasileiro. Trata-se do primeiro registro, então tinha de ser o mais vasto e abrangente possível. O governo de Santa Catarina proibiu raves em Florianópolis e Camboriú para ´conter a escalada da violência´. Aconteceu em Niterói também. O preconceito contra a cena é crescente? O preconceito existe. Até por isso criamos essa ONG, a AME, para mostrar que não é por aí, proibindo raves, que o consumo e venda de drogas vai diminuir. Esse pensamento é pequeno. Não acho que o preconceito seja crescente, até porque daqui a pouco acham algum outro bode expiatório para arrumar publicidade, para vender jornal. Achou-se um bom lide, que é a fórmula ´ecstasy mais música eletrônica mais gente muito louca´, para os cadernos de Cidades, e a polícia aproveita muitas vezes para mostrar serviço, aparecer na TV com um suposto ´DJ´ sendo preso vendendo pastilhas. Primeiro: esses caras que se dizem DJs, quem são? Eles falam que são DJs e a mídia aceita. Já viu o DJ Pam, o tal traficante DJ, tocando em alguma festa? Eu não, nem ninguém que eu conheça. Será que ele toca em algum clube no Alto Xingu?

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