Livro mostra força do revival dos anos 1980

O livro Quem Tem Um Sonho não Dança - Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80 (Editora Record, 504 págs., R$ 59,90), que o jornalista Guilherme Bryan lança hoje no Caretas Bar, é mais uma prova que o revival da década de 1980 persiste. Sem se aprofundar em análises sociais, o livro é um relato de fatos cheios de detalhes, alguns desnecessários. Se você quer saber quem fez vocais de apoio para o grupo Magazine na regravação de Fuscão Preto, está lá. Mas não há elementos para dimensionar o impacto da novela Vale Tudo (1988-1989), de Gilberto Braga, e da música que lhe servia de tema de abertura, Brasil, de Cazuza, gravada por Gal Costa. O Brasil saía de um período de negror de ditadura e censura. A juventude que freqüentava os shows de rock também encheu as ruas de caras pintadas na campanha das Diretas-Já (que o livro mal assinala), e se acostumou a ver figuras simbólicas morrerem em conseqüência da aids (entre os citados estão Cazuza, Renato Russo, Lauro Corona, Caio Fernando Abreu, Leonilson, Alex Vallauri, Luiz Roberto Galízia), mas Bryan não reflete sobre o comportamento juvenil da época. Preocupou-se em provar que os 80 não foram uma década perdida em termos de cultura brasileira, como um dia afirmou uma professora dele. A cobertura das manifestações artísticas é ampla. O autor não se limitou à explosão do rock, apesar de constatar que seus maiores ídolos vêm dele. Escolheu um título, extraído da letra de Bete Balanço (Frejat e Cazuza), que simboliza a junção entre as artes. "A música foi gravada pelo Barão Vermelho para o filme de Lael Rodrigues, que foi um nome importante do cinema na época, e estrelado pela Débora Bloch, que foi aluna do Asdrúbal e, depois, participou da TV Pirata", justifica Bryan.Enfim, os anos 80 não foram só o niilismo da juventude yuppie e o besteirol do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, ponto de partida do livro, nem deixaram muita saudade. A moda nunca tinha sido tão cafona, mas a televisão fez história com produções de linguagem inovadora como o seriado Armação Ilimitada, dirigido por Guel Arraes. Foi importante o rock ter confrontado a careta MPB da época, o que desembocou nas fusões dos anos 90, mas poucos daqueles discos são suportáveis hoje, bem como os filmes e livros. O Rock in Rio abriu as comportas para a vinda de muitos shows internacionais. O grafite virou arte nas mãos de Alex Vallauri. O Estado lançou o Caderno 2. O teatro viveu a era do encenador, com Antunes Filho no topo. Bryan, que nasceu em São Paulo em 1975, valeu-se de uma farta pesquisa em jornais e revistas (há 20 páginas dedicadas às fontes consultadas e outras 70 de índice, mais encarte com fotos), além de ter entrevistado quase 180 testemunhas daquela geração que, em suma, criou embriões de muita coisa que melhoraria nos anos 90. Quem Tem Um Sonho não Dança - Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80 - De Guilherme Bryan. Editora Record. 530 páginas. R$ 59,90. Hoje, 19 h. Caretas Bar. Rua Aspicuelta, 208, Vila Madalena, tel. 3814-7581

Agencia Estado,

17 de novembro de 2004 | 12h15

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