Livro mostra como fins justificaram os meios na busca por Bin Laden

Mark Bowden, autor de 'A Caçada', escreveu detalhado relato sobre o serviço de inteligência americano

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h14

Um alívio parece ter coberto todo o território dos Estados Unidos quando, na madrugada do dia 2 de maio de 2011, o presidente Barack Obama anunciou, pela tevê, que Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda, fora morto por forças militares durante um ataque a uma mansão em Islamabad, capital do Paquistão. Com isso, acreditava o mandatário, a justiça finalmente triunfava - Obama se referia aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando um grupo terrorista liderado por Bin Laden matou quase 3 mil pessoas na cidade de Nova York, no Pentágono e na Pensilvânia.

"Sua morte fechou um capítulo perturbador e violento da história americana moderna", comenta o jornalista Mark Bowden, autor de A Caçada (Alfaguara, 248 páginas, R$ 32), detalhado relato sobre como os serviços de inteligência americanos encontraram Bin Laden. "Ela provocou um notável extravasamento de emoção em todo o país."

O assunto é o mesmo do filme A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow, que inicialmente se baseou no trabalho de Bowden e que foi duramente criticado nos EUA por apresentar a tortura como forma de se conseguir informações preciosas. Sobre o tema, o escritor respondeu as seguintes questões.

Por que a natureza da guerra mudou tão drasticamente desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011?

A guerra evolui movida sobretudo pela tecnologia, mas também pela geopolítica. O surgimento de organizações terroristas sem raízes estatais foi uma adaptação a um mundo onde os Estados Unidos e outras potências militares poderiam responder com força arrasadora a uma ataque de um Estado-nação. A Al-Qaeda foi um exemplo particularmente sofisticado. Ela obrigou os Estados Unidos a refinarem as estratégias e táticas necessárias para rastrear redes invisíveis e atacá-las com rapidez e precisão.

Seu livro é uma vasta descrição da tecnologia de drones (aviões teleguiados). Como a tecnologia ajudou as forças americanas a chegarem a Bin Laden?

Os drones permitem uma vigilância acessível constante que, quando combinada com supercomputadores e software inteligente, permite identificar e rastrear alvos específicos. Quando a CIA conseguiu encontrar Ibrahim Saeed Ahmed (Ahmed, o kuwaitiano), eles utilizaram drones para vigiá-lo continuamente. Ele levou os perseguidores americanos ao complexo em Abbotabad onde Osama bin Laden estava escondido.

Nas últimas semanas, o filme A Hora Mais Escura tem enfrentado uma forte contestação por conta de sua mensagem implícita de que a tortura ajudou a resolver o caso Bin Laden.

A resposta curta é, sim, a tortura exerceu um papel para encontrar Bin Laden. Não foi um papel crucial, e jamais saberemos se a mesma informação poderia ter sido obtida de maneira diferente, mas a tortura fez parte da história, e foi corretamente descrita no filme.

O que a morte de Bin Laden significou para os EUA?

Acho que sua morte fechou um capítulo perturbador e violento da história americana moderna. Ela provocou um notável extravasamento de emoção em todo o país, e tranquilizou a maioria dos americanos de que as redes militares e de inteligência do país estavam preparadas para a tarefa de derrotar terroristas internacionais inclinados a cometer atos aleatórios de assassinato em massa.

E como isso o afeta como jornalista que escreveu um livro sobre o assunto?

Sou um americano e senti as emoções descritas acima. Qualquer um que acredite nos princípios básicos de uma sociedade livre, baseada na igualdade e no respeito mútuo, comemoraria a derrota da Al-Qaeda e o fim de Bin Laden. Assim, comecei a trabalhar na história acreditando que o esforço se justificava. Um escritor que simpatize com a causa que Bin Laden defendia não sentiria isso.

Você identifica alguns equívocos no planejamento e condução do ataque a Bin Laden. Quais foram os mais importantes?

Acredito que alguns relatos logo em seguida ao ataque deixaram a impressão de que os SEALS haviam se envolvido num tiroteio prolongado no complexo de Abbotabad. Não se envolveram. Foi antes um caso de ataque metódico e execução. Também acho que os que acreditam que a decisão que Barack Obama tomou foi fácil, e muitos argumentaram nesse sentido, estão errados.

Você conversou com Obama no Salão Oval da Casa Branca. O que mais te impressionou?

Fiquei mais impressionado, e satisfeito, por ele ter aceitado conversar com franqueza e demoradamente comigo sobre o fato. O presidente dos Estados Unidos vive assediado por pedidos como o meu, e certamente não poderia atender a todos. Fiquei impressionado também pela confiança e o conhecimento fluente do homem sobre o assunto. Em nossa conversa de uma hora e meia, ele não recorreu a nenhuma anotação ou assessor. Isso me disse que ele próprio dirigiu a missão, do começo ao fim.

Qual é a maior lição a ser tirada dessa história?

Creio que a abordagem correta para combater o terror internacional não é uma invasão militar em larga escala, mas operações unitárias pequenas informadas pela inteligência. Foi ao que o Estados Unidos chegaram após uma década de guerra, e depois de muita tentativa e erro. A caçada bem sucedida de Bin Laden ilustra isso melhor do que qualquer outra história que eu conheça.

O jornalismo narrativo americano tem se parecido muito com ficção em livros e tirado sua inspiração do arco narrativo clássico. Acredita que ainda haverá lugar para essa narrativa conscientemente literária? Como pensa que essa narrativa literária provavelmente desaparecerá ou mudará com respeito ao jornalismo?

Acredito que a forma veio para ficar. Um dos traços curiosos da vida moderna é o bombardeio constante de resumos de matérias noticiosas. Nós nadamos em um mar de informação que se espalha pelo globo, e que tem apenas alguns centímetros de profundidade. Isso desperta o apetite de uma pessoa inteligente por mais informação sobre muitas coisas. A maneira mais eficaz de escolher nessa nevasca de resumos de falas, fotos e manchetes é a narrativa. A narrativa "literária" é apenas boa narrativa.

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