Divulgação
Divulgação

Livro mostra como a quebra da Bolsa de NY fomentou a Depressão e o nazismo

Em '1929', Ivan Sant’Anna descreve como a Quinta-feira Negra alterou os rumos da história

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2014 | 18h13

No dia 5 de setembro de 1929, o teórico econômico Roger Babson foi ridicularizado ao proferir um discurso sombrio: "Mais cedo ou mais tarde, o crash virá, e poderá ser tremendo", vaticinou. Babson falava sobre a bolsa de valores de Nova York, que vivia uma euforia jamais vista. Os Estados Unidos encerravam uma década dourada em clima de euforia e consumismo desenfreado. "O delírio era coletivo", comenta Ivan Sant’Anna, escritor, ex-dono de corretora e operador do mercado financeiro, autor de 1929 (Objetiva), emocionante relato sobre o crash da bolsa de Nova York, fato que alterou os rumos da história.

::: Cultura Estadão nas redes sociais :::

:: Facebook ::

::  Twitter ::

Naquele ano, acreditava-se no nascimento de uma sociedade em que todos poderiam ser ricos, pois bastava aplicar todas suas economias no mercado de ações. O sonho encantava celebridades, como Charles Chaplin e Irving Berlin, e cidadãos comuns como o engraxate Pat Bologna, que ganhava fama por seus palpites em ações baseados em conversas com clientes famosos.

Banqueiros, artistas, donas de casa, ninguém acreditava em perda. A armadilha, porém, se armava – destaque para as "chamadas de margens", possibilidade de comprar ações financiadas pagando uma fração do valor total e dando o próprio papel como garantia.

Quando as ações estavam em alta, o mercado se sustentava. A queda, no entanto, obrigava o investidor a pagar ao credor o valor equivalente à perda. Ou era obrigado a vender o papel para saldar a dívida. Ou seja, milhões de dólares eram movimentados sem que realmente existissem.

Quando o castelo de ar começou a ruir, em outubro de 1929, a tragédia se escancarou. O índice Dow Jones, que avalia o mercado, registrou um pico e o mercado começou a sentir que uma queda se aproximava. O volume de negócios diminuiu até que, no dia 24, conhecido como a Quinta-Feira Negra, ocorreu a quebra. Milhares de pessoas perderam as economias, o desemprego aumentou e o pânico resultou em diversos suicídios. O mercado perdeu mais de US$ 30 bilhões em dois dias.

Em seu livro, Sant’Anna mostra como a quebra da bolsa deu origem à grande depressão e influenciou a ascensão do nazismo. Também narra casos curiosos, como o feeling de Chaplin que, percebendo o perigo iminente, vendeu suas ações em 1928 e escapou do prejuízo.

Por que a crise de 1929 foi a maior de todos os tempos?

Porque seguiu-se à maior febre especulativa dos tempos modernos. O mercado tornou-se irreal e, por isso, a queda foi gigantesca. Além disso, o Fed (Banco Central dos EUA) não tomou nenhuma medida para dar liquidez ao mercado após o crash e o presidente Herbert Hoover disse que a crise da bolsa era um problema privado e não dizia respeito ao governo. Em ocasiões posteriores, como no crash de 19 de outubro de 1987 e na crise do subprime (2008), o governo agiu rapidamente, dando liquidez ao mercado e repassando dinheiro a empresas como a General Motors, assim como salvando da falência as duas gigantes de crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac, sem contar que, após 1929, foi criada a SEC (reguladora encarregada de analisar a estrutura do mercado de ações). O mesmo aconteceu na Europa quando o Banco Central Europeu, o FMI e a Alemanha agiram para socorrer países como a Grécia, Irlanda, Itália, Espanha e Portugal. Hoje, todo mundo tem 1929 como espelho e ninguém deixa que as coisas tomem aquele rumo.

A crise de 1929 levou os EUA a um isolacionismo no momento em que as democracias ocidentais enfrentavam a ascensão das ditaduras fascistas. Ou seja, de alguma forma, a crise de 1929 retardou a entrada nos EUA na 2ª Guerra Mundial?

Se não houvesse o crash de 1929, dificilmente teríamos a ascensão de Hitler ao poder e o advento da Segunda Guerra Mundial. A febre especulativa causou o crash, o crash causou a Grande Depressão e a Grande Depressão provocou a Segunda Guerra. O protecionismo comercial generalizado que se sucedeu ao crash contribuiu para o isolacionismo americano e realmente retardou sua entrada na guerra, o que só aconteceu após o ataque a Pearl Harbor.

Também é possível afirmar que aos EUA foi necessário um século de erros – de 1830 até o crack da bolsa em 1929 – para que sua casa financeira fosse posta em ordem? Mas como explicar a recente crise de 2008?

O mercado tem memória curta e é movido por ganância e medo. A diferença agora é a maneira como as autoridades monetárias reagem às crises. Por isso a crise de 2008 foi apenas uma gripe se comparada ao câncer devastador de 1929. Aliás, o chairman do Fed em 2008, Ben Bernanke, é um especialista em 1929. Agiu rápido para estancar a hemorragia. Até hoje, as taxas de juros nos EUA estão próximas de zero. Pode haver inflação, mas um novo 1929 dificilmente acontecerá nas próximas gerações.

Por que você não cita o Brasil em sua obra?

O Brasil não teve papel relevante na crise de 1929. Sofreu apenas as consequências, com uma brutal diminuição das exportações de café. Em minhas pesquisas, não encontrei nenhum personagem brasileiro que se encaixasse na história.

1929

Autor: Ivan Sant’Anna

Editora: Objetiva (356 págs., R$ 44,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.