Livro <i>Retrato da Paz</i> registra história de Angola

?Pula? é a forma como o angolano se refere ao branco português. A alcunha carregada de agressividade, resquício do ressentimento pelos colonizadores que exploraram as riquezas naturais da região durante quatro séculos, tem rapidamente o tom hostil substituído por largo sorriso quando o sotaque é brasileiro. O visitante vira convidado.Foi assim, convidados e também se convidando, que os jornalistas paranaenses Leandro Taques e Julio César Lima, fotógrafo e repórter, se infiltraram por 40 dias em meio à população de Angola no final de 2006 para produzir o livro O Retrato da Paz, recém-lançado em Curitiba e com previsão de chegar a São Paulo e Rio nos próximos meses. Com patrocínio da Petrobras, os dois jornalistas percorreram 6,5 mil quilômetros das 18 províncias que compõem o país, para contar em textos e fotos as histórias do recente pós-guerra angolano. Encontraram homens feridos por milhares de minas que ainda ocupam a maior parte território de Angola e impedem o desenvolvimento da agricultura local; viram de perto a miséria que assola o país; visitaram cidades dizimadas pelos combates de três décadas e presenciaram acima de tudo a vontade da reconstrução. ?O clima é de arregaçar as mangas. A sensação é de que todos estão unidos para construir um futuro de paz e não deixar mais se repetir a história das últimas gerações?, comentou Taques em entrevista exclusiva ao Estado. A idéiaA idéia do registro de Angola partiu de uma viagem feita por Taques durante três meses em meados do ano passado, na base da mochila, apoio da pastoral da criança e o livro A Geração da Utopia, do angolano Pepetela como guia. Na época, assustado com os elevados preços locais - tudo é importado em Angola - esgotou o dinheiro que tinha em tempo menor do que o previsto e teve de trabalhar como fotógrafo free-lancer para uma das construtoras brasileiras que estão atuando na reconstrução de estradas no interior do país. Foi a oportunidade que precisava para ver de perto áreas de combate distantes da capital Luanda. ?Sempre tive curiosidade por áreas de pós-guerra e dessa vez tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa?, comenta o fotógrafo, que registrou, cinco anos atrás, o Paquistão e o Afeganistão, em situação semelhante, para um trabalho ainda inconcluso. De volta ao Brasil, buscou o patrocínio e voltou para fazer o registro final. Na primeira viagem, Taques fez os registros em digital, mas apenas três fotos com essa tecnologia entraram no livro publicado. O restante foi obtido com a captura em 80 filmes em preto-e-branco (3 mil fotos aproximadamente) ?para dar maior noção de realidade às imagens?. Beleza plásticaTodos os registros, segundo o fotógrafo, foram feitos com abordagem dos retratados para entrevistas concedidas ao seu parceiro. ?Não temos uma imagem roubada. Todas foram autorizadas. Éramos bem recebidos. Afinal, havia uma clara intenção do povo de se deixar perpetuar, de fazer história, de resgatar a memória.? Variando entre ângulos mais fechados de sua lente 50 mm, numa clara inspiração em seus ?gurus? Cartier-Bresson e Sebastião Salgado, ou mesmo em planos mais abertos, como nas fotografias que ilustram a estação de trem Catumbela, que se transforma em feira-livre durante a manhã, Taques explora a beleza plástica de Angola, concentrando-se nas formas e nas texturas do lugar ao registrá-las em preto-e-branco. Evita se deixar levar pelas cores intensas e saturadas dos tecidos que cobrem os angolanos sob sol escaldante. Entre as histórias contadas por cidadãos comuns, escritores, artistas e comerciantes, os dois repórteres perceberam que boa parte se repetia nas cidades pelas quais passavam. ?Afinal são duas gerações de perdas de parentes próximos em combates.? Em meio aos relatos, há tempo para o interesse pelo país do outro lado do Atlântico: ?O Brasil é muito violento, não??, indaga aos jornalistas um ex-combatente cubano. ?Não dá para discordar?, divaga Taques.

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