Livro <i>O Súdito</i> traz histórias da imigração japonesa

Massateru Hokubaru, nascido em Okinawa, tinha 13 anosquando foi mandado para o Brasil, acompanhando um jovem casal detios, com a missão de juntar o dinheiro necessário para salvarsua família, outrora ilustre e próspera, de uma situação próximada miséria. Sem falar uma palavra de português e sem ter do paísde destino uma idéia menos irrealista que a de um lugar onde secolhia dinheiro nos cafezais em que iria trabalhar (como sugeriaa propaganda destinada a incentivar a imigração), Massaterupartiu do porto de Kobe em 25 de abril de 1918. Espremido nocompartimento de carga do navio Wasaka Maru, só chegou a Santos49 dias depois, ao fim de uma viagem em que morreram 60 dos 1579 imigrantes a bordo, na maioria vítimas de meningite, outrosde intoxicação alimentar. Nunca voltou ao Japão e nunca juntou dinheiro. Aocontrário, sempre teve enormes dificuldades para sustentar afamília que constituiu aqui, depois de casar com a imigranteFussako Asato, vinda alguns anos depois dele e que lhe deu setefilhos, dos quais o próprio Massateru fez o parto (o terceiro,Yotchan, morreu de difteria, aos 4 anos, quando a família vivianuma chácara no bairro dos Machados, em Araraquara). Além dosfilhos próprios, o casal adotou outros dois, de uma sobrinhaassassinada por um agregado da família, na mesma chácara deAraraquara em que moravam então. Ao morrer de câncer, em 1966,não deixou bens - nem dívidas - mas todos os seus filhos estavamcriados, seis deles cursando ou a caminho do curso superior. Omais velho, Massayuki, formado economista, lhe dera ademais osupremo orgulho de se tornar oficial do Exército Brasileiro, coma carta-patente assinada pelo próprio presidente JuscelinoKubitschek.Foi sorveteiro, chacareiro, feirante e tintureiro É a vida de seu pai Massateru que Jorge J. Okubaro contaem O Súdito (Banzai, Massateru!), que será lançado naterça-feira pela editora Terceiro Nome, uma trajetória depercalços em todas as profissões que experimentou depois defugir, literalmente, da fazenda de café no interior de São Pauloonde trabalhava, em condições medievais, desde sua chegada aoBrasil. Tentou a sorte plantando algodão, foi sorveteiro,chacareiro, feirante e tintureiro, numa seqüência de episódiosentremeados por acontecimentos marcantes desse período: a 1.ªGuerra Mundial, a Revolução de 30, o Estado Novo e a 2.ª Guerra,esta com todo o impacto que a participação do Japão no conflitoteria sobre os imigrantes japoneses no Brasil. Entre elesMassateru, que, sempre muito falante e chegado a uma polêmica,logo se engajou na Shindoo Renmei, organização semiclandestinaformada por imigrantes que não aceitavam a versão de que o Japãohavia perdido a guerra. Na verdade, para grande parte dos súditos japoneses(incluídos os que viviam no Brasil), sinceramente convictos dasorigens divinas do império, sua derrota na guerra era algo quenão fazia sentido. Os militantes da Shindoo Renmei (algo como?Liga dos Caminhos do Imperador?) organizavam reuniões em quetratavam de difundir notícias triunfalistas sobre supostasvitórias japonesas nos combates. Os mais radicais foram além epassaram a ameaçar aqueles que acreditaram na rendição do Japão,a quem chamavam de ?makegumi? (derrotistas). Vários destes foramalvos de atentados, alguns assassinados.Envolvimento com a Shindoo Renmei O envolvimento com a Shindoo Renmei custou a Massaterualgum tempo na cadeia e seu enquadramento naquele que foi oprocesso mais amplo na história da justiça brasileira até então,com 470 denunciados e que se arrastou por mais de 12 anos, atéacabar prescrito, em junho de 1958. Mas lhe valeu, também, aoportunidade de se tornar personagem central de um livro, poisfoi ao fazer para o Jornal da Tarde uma resenha de CoraçõesSujos, de Fernando Moraes, relato voltado para os atos maisviolentos daquela organização, e em suas páginas encontrarreferências a seu pai, que Jorge Okubaro teve a idéia deescrever O Súdito. Ao contrário de Fernando Moraes, no entanto, queconcentrou seu foco nos militantes que cometeram crimes desangue (não foi o caso de Massateru), Jorge preferiu avaliar ofenômeno a partir dos adeptos anônimos da organização, que,segundo a polícia de São Paulo, chegou a mobilizar mais de 90mil japoneses nos núcleos de imigrantes espalhados pelo Estado etambém na capital. "Quem eram esses japoneses? O que pensavam?Por que, sendo alguns tão instruídos, aderiram a uma idéia tãoestapafúrdia como a de que o Japão vencera a guerra?" Respostasno livro.Uma história de 100 anosO Súdito será lançado na próxima terça-feira, a partir das 19 horas, no restaurante Shintori (alameda Campinas, 600, Jardim Paulista). O lançamento do livro, que tem apoio da Fundação Kunito Miyasaka, se antecipa às comemorações do centenário da imigração japonesa, em junho de 2008, cem anos depois da chegada a Santos do primeiro navio de imigrantes japoneses, o Kasato Maru. Os festejos, para os quais está sendo esperada a vinda de membros da família imperial, já causam intensa mobilização da comunidade japonesa no Brasil.

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