Livro investiga o apoio no cinema ao golpe de 64

No início da década de 60, um caminhão costumava vencer as precárias estradas brasileiras e chegar a pequenas cidades do interior, transportando uma tela e um projetor. O cinema era improvisado normalmente em praças públicas. Numa delas, em Santos Dumont, interior de Minas, a menina Denise saía do catecismo e corria para assistir a filmes de nomes como O Brasil Precisa de Você e Depende de Mim, que mostravam cenas de ditadores, corpos mutilados e grupos de retirantes, enquanto uma voz em off alertava para o perigo de uma revolução comunista no País. Quase 40 anos depois, a jornalista Denise Assis tomou um susto ao se lembrar de algumas daquelas cenas chocantes enquanto assistia a 14 filmes para uma pesquisa que realizava sobre a propaganda ideológica no Brasil da era Jango. Os curtas exibidos em todo o território nacional foram financiados pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e serviram como poderoso instrumento de persuasão popular para desmoralizar o governo do presidente João Goulart. A documentação do material cinematográfico e sua análise estão reunidas no livro Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe (Editora Mauad) que será lançado do próximo dia 13 no Museu do Catete, no Rio de Janeiro.A pesquisa de Denise reabre um capítulo cheio de melindres da história brasileira, a participação de intelectuais, artistas e diretores no golpe militar de 64 que sufocaria a democracia no País por mais de 20 anos. Entre os personagens desse episódio soterrado na memória política e cultural está o escritor José Rubem Fonseca, um dos autores mais celebrados da literatura nacional e que no mês que vem vai lançar sua obra mais recente, Secreções, Excreções e Desatinos (Companhia das Letras). Fonseca, autor de Feliz Ano Novo, livro censurado pelo regime militar, assinou os roteiros dos 14 filmes financiados pelo Ipes, enquanto sua execução ficou a cargo de cineastas como Jean Manzon e Carlos Niemeyer.Leia mais

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