Livro investiga legado do "fotógrafo sem face"

A crise energética não turvou a visão da Fundação Patrimônio Histórico de Energia de São Paulo. A instituição lança na próxima semana, no Terraço Itália, com patrocínio do Banespa, um livro que promete fazer História. Trata-se de uma obra com diversas fotos inéditas de Guilherme Gaensly (1843-1928), importante fotógrafo de origem suíça que trabalhou em Salvador nos idos de 1860 e depois se tornou um dos mais ativos autores de cartões-postais da capital paulista, entre 1895 e 1925. É o "fotógrafo sem face": misteriosamente, ainda não foi encontrado nenhum registro de seu próprio rosto.Imagens de São Paulo: Gaensly no Acervo da Light (1899-1925) é um vertiginoso mergulho na metrópole emergente, mas também a surpreendente revelação de um espírito artístico quase desconhecido. O imigrante protestante suíço Gaensly captou mais que instantâneos; também fez comentários visuais sobre o seu tempo.Pesquisadores da fundação remexeram durante um bom tempo nos arquivos da Light. São 20 anos de trabalho. E, entre os milhares de originais de profissionais que trabalharam no registro das obras urbanas da empresa The São Paulo Tramway Light and Power Co na cidade - instalações de trilhos, postes, construção de usinas e pontes -, foi definida a autoria de Gaensly em 726 fotografias.Melancolia - Gaensly nasceu em Welhausen, na Suíça, e emigrou com a família para o Brasil em 1848. Morreu em 1928, aos 85 anos, na capital paulista. A natureza de seu trabalho como fotógrafo era investigativa, curiosa. Ele chegou mesmo a fotografar imigrantes suíços chegando ao Porto de Santos no navio San Gottardo, uma foto de suave melancolia que parece indicar um artista em busca de sua própria imagem.São visões permeadas por ecos das vanguardas artísticas do fim do século 19 e começo do século 20. Uma ponte grande sobre o Rio Tietê ganha um aspecto impressionista. Um grupo de trabalhadores de Santana do Parnaíba surge, em 1900, como uma tropa de pioneiros do Velho Oeste americano, desbravando uma terra inóspita. Uma certa Vista do Tietê a Montante, datada de 1.º de março de 1900 mostra uma construção geométrica na água de reflexos de mastros submersos.A féerie de uma cidade em vertiginoso crescimento é registrada por Gaensly com humanidade, sempre com a introdução de personagens. "Mesmo as fotos mais técnicas têm esse caráter rígido da construção de um cenário", diz Vera Maria de Barros Ferraz, presidente da fundação.Vera está há 20 anos deliciando-se com as fotografias que remontam o passado paulistano. Antes da fundação, foi gerente da Eletropaulo e manteve-se sempre próxima desse acervo. Ela salienta, no entanto, que o livro recupera apenas um aspecto da obra de Gaensly. "Ele tinha ateliê em São Paulo num tempo interessante, onde havia muito dinheiro", ela conta. "Tem uma obra complexa, fez retratos e fotografou fazendas de café."O trabalho que Gaensly realizou para a Light foi prodigioso. Ele acompanhou o crescimento da cidade, que em 1924 tinha 700 mil habitantes e cuja topografia mudava aceleradamente, com bondes tomando o lugar dos cavalos e multidões de cavalheiros de chapéu nas ruas. Paralelo - "Na produção iconográfica paulistana do século 20, parece ser possível traçar um paralelo entre a obra de Gaensly com a do fotógrafo Cristiano Mascaro por sua abrangência e continuidade, embora com um repertório distinto", escreve o arquiteto Ricardo Mendes, especializado em História da Fotografia. Ele diz que, embora pareça temerário esse paralelo, a arte de Gaensly e a de Mascaro foram recebidas e reconhecidas nos últimos 20 anos "com igual valor e importância para a definição de uma identidade de São Paulo".Para Mendes, "ainda que as imagens de Mascaro reflitam a ausência de uma estrutura física estável, e mesmo sua intangibilidade, elas parecem delimitar, junto com as fotos de Gaensly, os limiares iniciais e finais do século".O livro Imagens de São Paulo: Gaensly no Acervo da Light (1899-1925) é a primeira publicação da Fundação Patrimônio de Energia de São Paulo, instituição de direito privado que busca ser um centro de referência no setor. O livro foi realizado com apoio do Banespa, que investiu R$ 160 mil no volume, e da Fundação Helvécia, que aplicou outros R$ 5 mil, além da colaboração do Consulado da Suíça.

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