Livro homenageia Farnese de Andrade

O livro "Farnese de Andrade", daEditora Cosac-Naify, que será lançado amanhã (20) na Pace ArteGaleria de Belo Horizonte, é mais do que uma merecidadocumentação sobre a obra de um dos mais ricos e solitáriosartistas brasileiros contemporâneos. Trata-se de uma homenagemao genial artista que não teve nem em vida nem após a morte, em1996, o devido reconhecimento. Idealizada pelo editor ecolecionador Charles Cosac, um grande admirador da obra doartista e que considera o projeto desse livro uma das pedrasfundamentais de sua editora, a publicação tem tudo paratornar-se um objeto de desejo de colecionadores e admiradores dearte contemporânea, cuja concretização pode ser dificultada pelopreço de R$ 220. Com um cuidadoso projeto gráfico, um texto extremamentepreciso em que Rodrigo Naves analisa a obra de Farnese não comouma perversão pessoal, mas como uma vertente importante daprodução brasileira - que põe de lado a esperança para dar rostoa uma "história cruel, repleta de violências e maldades", parasublinhar "os entraves que conduziram à precariedade nacional"- e um DVD do documentário sobre o artista realizado em 1970 porOlívio Tavares de Araújo, que resgata todo o processo criativode Farnese, a obra procura dar ao leitor/espectador apossibilidade de aproximar-se não apenas racionalmente ouvisualmente de sua obra, mas uma chance de mergulhar na potente,fascinante e assustadora obra do artista mineiro que soubeconstruir uma das mais genuínas poéticas visuais da modernidadebrasileira. Sexo, morte, nascimento e religião são os principaistemas em torno dos quais Farnese construiu sua poética. A morte o rondou por muito tempo. Desde a infânciaconviveu com o fantasma da perda de dois irmãos mais velhos numaenchente em sua cidade natal, Araguari (MG). Depois, conseguiuescapar por pouco da tuberculose, segundo seu irmão graças àsprimeiras doses de estreptomicina que chegaram ao Brasil em 1949e segundo ele por causa do encontro com o mar ("Nasci no meiodas montanhas - no meio do triângulo mineiro - e considero-ascerceantes. Só fui ter saúde quando em contato com o mar"). Erano mar que encontrava boa parte dos elementos que usava paraconstruir seus estranhos objetos. O primeiro deles foi feito em1964, após uma frustrada tentativa de se "concretizar". No documentário de Araújo é possível vê-lo nesse garimpoà beira-mar, procurando elementos que - segundo o cineasta ecrítico - o transformam numa espécie de "arqueólogo dopresente". Ao vê-lo observando um boneco de cordas engatinhandoem falso, com as pernas para cima, ou queimando os pequenosbonecos de plástico com os quais construirá uma série de obrasreferentes à tragédia de Hiroshima, uma outra profissão nos vemà mente: a do entomologista. Mas em vez de estudar insetos, eledisseca a alma e as emoções humanas. O uso da figura numa época em que predominava a arteabstrata, o retorno sem fim a temas tabu como os mencionadosacima, associados a uma personalidade difícil, fizeram com queFarnese caísse na obscuridade. Sua morte em 1996, aos 70 anos,mal foi noticiada pelos jornais e apenas no final da décadacomeçaram a se organizar exposições com o objetivo de resgatar asua obra. Entre essas iniciativas destaca-se a do crítico TadeuChiarelli, então curador do Museu de Arte Moderna, que conseguiuadquirir uma série de obras de Farnese para a instituição quedirigia e organizou uma publicação com vários artigos sobre seutrabalho - uma importante referência bibliográfica para quemquer se aprofundar no assunto.

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