Livro faz radiografia da Globo

Tudo parece estar perfeitamente bem. A Rede Globo mantém, na maioria de seus programas, o maior índice de audiência em relação às concorrentes. Mas uma análise mais apurada mostra uma realidade mais complexa e menos favorável à emissora do Jardim Botânico. É o que faz o livro A Deusa Ferida, que será lançado segunda-feira, onde o leitor ficará sabendo que a Vênus Platinada já foi, ainda é com restrições e pode voltar a ser a líder absoluta de audiência. A obra, coordenada por Silvia Borelli e Gabriel Priolli, contou com uma pesquisa minuciosa feita por Eliana Malta, Luiz Carlos Rondini, Maria Celeste Mira, Maria Eduarda Guimarães e Rosamaria Luiza de Melo Rocha. Mostra que apesar dos índices de audiência terem baixado, a Globo mantém a liderança. É necessário observar que as novelas sempre alcançam índices maiores que o restante da programação, incluindo o tão respeitado e imponente Jornal Nacional. Entretanto, o hábito de assistí-las parece ter se alterado até mesmo entre os fanáticos por folhetins. O prime-time (das 19h30 às 21h30) e, conseqüentemente, a novela das oito, sente o crescimento da concorrência, que muitas vezes recorre a programas como o do Ratinho ou folhetins mais descabelados, além, claro, da tevê paga. Um outro fator que acaba prejudicando o bom desempenho das novelas no ibope é que muitas pessoas deixaram de lado o hábito de assistí-las. Isso ocorre não somente pela opção de outros programas, mas porque, atualmente, a Globo não tem emplacado tramas que atinjam o gosto mais geral. A pesquisa constatou que um número significativo de entrevistados considera as novelas de antigamente melhores, com histórias e personagens mais envolventes. E muitos preferem novelas de época, como Terra Nostra, de Benedito Ruy Barbosa, que andaram ausentes da telinha.Após duas décadas de liderança quase absoluta, o espaço reservado às novelas passa por uma crise de audiência: de 1989 a 1994, houve uma variação negativa de 20% em pontos de audiência no horário das 20h. A solução para uma retomada pode estar na criatividade. Essa e o padrão original, pelo qual muitos se encantaram, talvez tenham se perdido em algum momento da trajetória da Globo. No início de setembro de 1969, sob o comando de Hilton Gomes (mais tarde substituído por Sérgio Chapelin) e Cid Moreira, o Jornal Nacional firmava-se como o primeiro jornal da tevê brasileira. Nessa época, em meio à ditadura militar, a perfeição técnica apresentou-se unida às limitações de conteúdo. Armando Nogueira, que comandou por 22 anos (de 1969 a 1991) a Central Globo de Jornalismo, confessou que realmente estavam mais preocupados com o formato e com a parte visual do jornal. Nos anos 90, o Jornal Nacional viu-se oscilando entre a busca da popularidade e do prestígio. Nessa década, Boris Casoy, no SBT, firmou-se como um dos mais respeitados apresentadores, apoiando o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. A maior queda do JN ocorreu em 93, quando o SBT colocou no ar a segunda edição do Aqui,Agora e cerca de 400 mil domicílios paulistanos trocaram de canal. No entretenimento, o SBT saiu perdendo em 1988, ao contratar Jô Soares. O apresentador foi o primeiro grande nome a deixar a líder de audiência. Jô teve o mesmo fim que outros apresentadores que ousaram mudar: sua audiência despencou. O baixo índice da tevê brasileira deveu-se também à diminuição do tempo gasto em frente à telinha e ao aumento da procura pelas tevês pagas. O zapping é uma prática que não é mais de domínio exclusivo dos jovens. Mudar freneticamente de canal é cada vez mais uma compulsão do público, principalmente o masculino. O padrão Globo de qualidade engessa a programação, mas o livro sugere que a emissora pode elevar seus índices de audiência sem arranhá-lo demais ? embora seja difícil retomar a total hegemonia do passado. A garantia é a preferência inerte dos telespectadores pela emissora, mesmo entre críticas e queixas.

Agencia Estado,

03 de dezembro de 2000 | 13h50

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