Livro fala sobre influência de línguas na vida de Clarice

Nos 16 meses em que passou noBrasil, em 1983 e 84, a canadense Claire Varin procurou ver oPaís através dos olhos de Clarice Lispector. "Vivi no mesmobairro que ela, o Leme, no Rio, e, da minha janela, tinha amesma vista do Oceano Atlântico", conta a escritora que, apartir da análise da obra e das conversas com amigos queconviveram com Clarice, elaborou conclusões decisivas.Como a influência dos idiomas na vida de Clarice. Oponto de partida foi uma frase, encontrada em um manuscrito:"Vivo ´de ouvido´, vivo de ter ouvido falar." "Clarice bebeuem segredo o leite das línguas e, desde pequena, tinha umbilingüismo oculto", comenta Clair, que descobriu com Elisa,irmã da escritora, a confirmação de que ela entendia, quandocriança, o iídiche falado pelos pais. "Suas experiênciasauditivas a mergulham desde a infância em um estado dedesestabilização de uma língua única pura."Claire acredita que os conflitos de identidade deClarice se intensificam nas fronteiras em que se encontrava asua mescla singular de línguas. "Enquanto ouvia o iídiche, elaaprendia o português e, mais tarde, quando vive em outros países, toma contato com o francês, o inglês e o italiano", comenta."Ela ouvia demais e sentia demais, toda linguagem lheinteressava, principalmente o silêncio, a entrelinha, onão-dito. Por isso que seus livros têm uma articulação estranha:estão sempre entre duas línguas."Para a escritora canadense, que hoje dirige uma revistade literatura em Montreal, era curiosa a forma como Claricejustificava seu defeito de pronúncia, em que não pronunciavadireito o "r". "Ela dizia ter língua presa, mas acredito quea torrente de línguas com que ela se expressava era a causaprincipal."Antes de Línguas de Fogo, Claire Varin escreveuoutro livro sobre Clarice, Rencontres Brésiliennes("Encontros Brasileiros"), em que faz uma curiosa colagem,reproduzindo trechos de manuscritos da escritora ou mesmo frasespinçadas em entrevistas com comentários ouvidos de amigos arespeito daquele assunto. Ainda sem tradução no Brasil, o livro,segundo sua autora, coloca-se como importante complemento aoLínguas de Fogo.Claire continua relendo a obra da escritora brasileira,mas não planeja, por ora, produzir outro livro sobre o assunto.No momento, preocupa-se em escrever sobre a morte. Explica-se:ela mora em uma bela casa que foi uma funerária. "Muitos mortospassaram por lá, o que afastou muito comprador em potencial.Isso não me preocupa, pois eu busco as energias positivas, quesempre existem."

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