Livro explica crenças do homem do campo contra forças da natureza

Uma caveira de boi espetada num tronco, um boneco feito de paus e roupas velhas, algumas rezas, uma ferradura ou um ramo de alecrim formam o "exército" de que o homem do campo ainda se vale para enfrentar as forças da natureza. Sitiantes de Tatuí, no interior de São Paulo, usam a ossada da cabeça do boi para espantar a inveja e o mau olhado, servindo também para proteger a horta dos ataques de pulgões e borboletas e tirar a ferrugem da couve. Essas práticas e crenças passadas de pai para filho alimentam a narrativa do jornalista Sérgio Coelho de Oliveira no livro Os Espantalhos, que acaba de lançar em Sorocaba. Editadas pela TCM, as 80 páginas narram a histórias levantadas ao longo de mais de uma década e de incansáveis andanças pelo interior, parando junto às roças, invadindo pastos e abrindo porteiras. "Consegui ganhar a confiança daqueles que sustentam, há gerações os segredos da vida simples e das soluções fáceis", disse o autor. Coelho constatou que o boneco de trapos conhecido como judas ou espantalho ainda é muito usado nas pequenas propriedades de Sorocaba, um dos principais centros industriais do Estado. "Mas eles fazem o espantalho com movimentos, pois assim funciona melhor para assustar as aves." Na região de Capão Bonito, também é conhecido como "figurão".Ele narra histórias de espantalhos que acabaram sendo adotados como "santos" pelas populações rurais. Em outro capítulo, conta as artimanhas usadas pelos sitiantes para espantar tatus, cobras e gambás. São animais considerados prejudiciais. Os gambás são históricos ladrões de ovos e pintinhos e os tatus estragam a roça. Uma xícara de pinga no galinheiro embriaga o pequeno marsupial, evitando o ataque aos ovos - "certamente vem daí a expressão, bêbado que nem gambá", diz Coelho. Um monte de cascas de amendoim na encruzilhada atrai o tatu e evita que ele invada o milharal durante a noite. Contra as cobras, que além de atacar cavalos e bois espalham o pavor entre os moradores rurais, o melhor remédio é uma boa reza. "Ainda há antigos rezadores, convocados para eliminar urutus e cascavéis das fazendas", conta o autor. Plantar arruda, guiné ou espada de são jorge perto do galinheiro evita o mau olhado, capaz de dizimar a pintaiada sadia. O costume ainda é usado em Sorocaba. Comigo-ninguém-pode também serve, mas tem que ser um "casal" de plantas. Fitas vermelhas atadas ao pescoço afastam doenças de galinhas, cães, coelhos. No bairro dos Pilões, em Iporanga, Vale do Ribeira, sitiantes espetam cascas de ovos em arbustos secos para afastar a inveja e o "zóio-ruim". Folhas de coqueiro, bentas, funcionam contra raios. Pragas de lavouras podem ser afastadas cortando algumas plantas doentes e amarrando-as numa encruzilhada. O primeiro passante que ver o chumaço leva a praga embora. Para atrair farturas, deve-se pendurar espigas de milho, pencas de amendoim e cachos de arroz no mastro durante as festas de São João. Em Guapiara, o costume se estende às frutas: laranja no mastro resulta em pomar farto e doce. Dar banho em imagens de santos atrai chuvas. Em Pereiras, leva-se água em garrafas para molhar um cruzeiro; em Capela do Alto a imagem de São João é banhada em córregos. Santa Rita, São Roque, São Benedito e Nossa Senhora da Conceição também fazem chover, na crença dos lavradores do interior. Para atrair a sorte, o melhor é ter, em local visível, uma ferradura com sete furos. O homem do campo, conta Coelho, teme também o misterioso e o sobrenatural. Ainda hoje acredita em saci pererê, boitatá e mula sem cabeça. Na noite de eclipse da lua cheia, que eles chamam de "criso", os sitiantes de Salto de Pirapora e Capela do Alto soltam rojões e dão tiros de espingarda em direção ao céu escuro "pra evitar que o dragão coma a lua", o que representaria o fim do mundo. Os Espantalhos - De Sérgio Coelho de Oliveira, Editora TCM. Tel: (15) 222-4003.

Agencia Estado,

10 de janeiro de 2001 | 23h01

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