Livro estraga imagem de Cohn-Bendit

Daniel Cohn-Bendit é uma das figuras mais talentosas da política francesa. É um dos principais líderes dos verdes. Os franceses o conhecem bem, ou melhor, eles o amam. Em 1968, em Paris, foi esse estudante franco-alemão quem detonou e liderou as grandes revoltas de maio, um mês que ficou conhecido como "o belo mês de maio", com sua mistura de anarquia, alegria, juventude, malícia e vontade de mudar a sociedade. Hoje, a L´Express teve a curiosidade de reler um livro que Daniel Cohn-Bendit publicou em 1975, Le Grand Bazar. Há nesse texto passagens extraordinárias que chamam a atenção. Cohn-Bendit relata sua experiência posterior a 1968, quando, de volta à Alemanha, trabalhou como educador de crianças. Eis o que ele tem a dizer sobre esse período de sua vida: "Aconteceu várias vezes de certas crianças me abrirem a braguilha e começarem a me tocar. Eu reagia de diferentes maneiras conforme as circunstâncias, mas o desejo delas me punha diante de um problema. Eu perguntava: Mas por que vocês não brincam juntos? Por que escolheram a mim, e não a uma outra criança? Mas elas insistiam, e eu, apesar de tudo, as acariciava." Delírios lúdicos - Esse texto foi publicado em 1975, há 25 anos. Hoje, seria totalmente inconcebível. Ao ser questionado a respeito, Cohn-Bendit, que normalmente não se incomoda com coisa alguma, ficou bastante constrangido. De repente, seu charme lendário se evaporou. Ele lembra que, na época, se vivia a "liberação sexual". E como ele tem uma "necessidade doentia e permanente de provocar", acabou colocando essas passagens desafiadoras no livro só para divertir-se. Mas nunca, em tempo algum, perpetrou os atos dos quais se gaba ali. Na defesa canhestra de si mesmo, Cohn-Bendit tocou em uma questão interessante: hoje, em 2001, ninguém é capaz de avaliar a que ponto chegou a loucura dos anos 70, e o quanto aquela década se distanciou, depois de maio de 68, do caminho da liberação sexual. Filósofos alemães como Marcuse, psicanalistas de linha freudiana e, sobretudo, reichiana, estudantes em seus delírios lúdicos. Tudo isso inaugurou um período em que "nada era proibido". Os jornais debatiam com muita seriedade se os pais deviam ou não fechar a porta do quarto quando faziam amor, etc. Durante algum tempo, as normas da vida social e doméstica desmoronaram. A palavra mais gloriosa do dicionário era "permissividade". Um outro documento, da mesma época, pode ajudar-nos a mensurar as mudanças de mentalidade ocorridas em 25 anos. Desta vez, é um jornalista do Le Monde quem nos vem refrescar a memória. Estamos em 1975. Diante do tribunal criminal de Versalhes, três homens são julgados por "atentado ao pudor, sem violência, contra menores de 15 anos" (jogos sexuais, fotografias, filmes). Ocorre que foi apresentada ao tribunal uma petição para que aqueles três homens fossem perdoados, uma vez que já haviam cumprido pena provisória de três anos. Que dizia a petição? "Três anos de detenção por carinhos e beijos são suficientes. É inconcebível que os acusados não sejam libertados." O mais estranho dessa petição, publicada, entre outros órgãos, pelo respeitadíssimo Le Monde, é que vinha assinada por gente de prestígio: Jean-Paul Sartre, Roland Barthes, além de outros conhecidos por seu envolvimento em todas as grandes causas humanitárias: os atuais ministros Jack Lang e Bernard Kouchner, o filósofo André Glucksmann, Philippe Sollers, etc. Nenhum deles assinaria hoje uma petição com esse teor. A pedofilia, passados tantos anos, expôs à saciedade sua face terrível. Mostrou que é sempre degradante e, às vezes, bárbara ou assassina. Cohn-Bendit, com o reparo que fez hoje àquelas linhas, confessa seu arrependimento de ter um dia escrito aquilo que escreveu. Com isso, pelo menos, podemos avaliar a velocidade com que a moral coletiva oscila, num e noutro sentido.

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