Livro é um resumo da ruína moral do século

Nos primeiros anos do século 20, Viena era o ponto de conflito do velho contra o novo, da tradição contra o moderno, do ethos capitalista da disciplina contra o ócio diletante da arte. Foram as contradições dessa cidade que "plasmariam o jovem Hitler", nas palavras do historiador britânico Ian Kershaw logo no início de sua biografia do ditador nazista. Das páginas desse já clássico da historiografia do Terceiro Reich emerge um homem com uma enorme energia devotada a si mesmo, um candidato a herói wagneriano que, aos 18 anos, se via como um "artista genial, um outsider e revolucionário, desafiador da ordem existente, que se negava a fazer concessões, desdenhoso da necessidade de curvar-se à ética burguesa de trabalhar para viver, superador da rejeição, da perseguição e da adversidade para atingir a grandeza".

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Noves fora a grandiloquência, o jovem Hitler pensava e agia como um adolescente comum. A pergunta, a que Kershaw se propõe a responder, é como esse adolescente comum se transformou num dos maiores genocidas da história. Viena é um bom começo para a resposta, como mostra o historiador. Mais do que Berlim ou qualquer outra cidade importante da Europa, a capital da Áustria tinha como característica central seu multiculturalismo, produto tenso da presença das diversas nacionalidades que compunham o Império Austro-húngaro. Enquanto essa característica lhe conferia uma vibrante vida artística, produzia também seu oposto - um discurso crescente de intolerância ao não germânico, ao cosmopolita, que se resumia na figura do "Judeu". Hitler, que não era particularmente antissemita quando foi viver em Viena, aderiu a essa lógica tão logo ficou claro que lhe seria útil para justificar sua vida medíocre. Mas, como mostra Kershaw, essa explicação é bastante insuficiente.

Somente o contexto geral do mundo germânico em processo de ruptura pode explicar a ascensão política fulminante de um pequeno-burguês insignificante como Hitler. Essa opção coloca Kershaw na difícil tarefa de escrever a biografia de uma "não pessoa" (unperson, no original), porque não é de Hitler propriamente que a pesquisa trata, embora desça a detalhes inclusive sobre sua sexualidade. Trata, sim, do poder de mobilizar um país sofisticado na tarefa de destruir a civilização. A conclusão é perturbadora: a ruína moral empreendida por Hitler foi menos trabalhosa do que parece.

Quando Hitler era apenas um agitador, o Exército o doutrinou a ser anticomunista e antissemita; depois, quando foi preso após tentar um golpe, contou com a leniência da Justiça alemã para se tornar celebridade nacionalista; mais tarde, chegou ao poder com a ajuda crucial dos conservadores; na década seguinte, o projeto hitlerista foi abraçado por todos os burocratas carreiristas. Portanto, a sociedade alemã, sobretudo sua parte mais esclarecida, estava pronta para um Hitler.

Essa visão coloca Kershaw entre os chamados "funcionalistas", os pesquisadores que enxergam o nazismo mais como resultado de um conjunto de fatores estruturais do que das características pessoais de Hitler. Seu trabalho se contrapõe ao dos "intencionalistas", que atribuem ao Führer e seu cardápio ideológico toda a responsabilidade pela implantação da política eliminacionista nazista. Kershaw se esforça para mostrar que as eventuais particularidades da personalidade do biografado - louco, sexualmente doente ou megalomaníaco - desviam o verdadeiro foco da questão. Para ele, o importante é mostrar que Hitler, afinal, foi o terrível produto de um tempo que aceitou a destruição como forma de redenção.

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