Livro e mostra trazem fotos raras do negro no século 19

O "racismo científico" do século 19 recebe nova luz a partir de hoje. É quando se abre, no Teatro Arena, a mostra interdisciplinar Rastros e Raças de Louis Agassiz: Fotografia, Corpo e Ciência, Ontem e Hoje. O naturalista suíço Louis Agassiz veio ao Brasil com a Expedição Thayer, nos anos de 1865 e 1866, em busca de documentar as "raças brasileiras" por meio da fotografia.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

No País, Agassiz encomendou a Augusto Stahl, fotógrafo profissional do Rio, uma série de fotografias de negros, classificados por Agassiz como "tipos raciais puros" (também o fotógrafo da expedição, Walter Hunnewell, colaborou nos retratos). Grande parte dessas fotos jamais havia tido a publicação autorizada pelo Peabody Museum da Harvard University, que detém sua posse.

Mas a historiadora Maria Helena P.T. Machado, da USP, e a artista suíça Sasha Huber (com o reforço de antropólogos, críticos e militantes antirracistas) conseguiram fazer extensa leitura - à luz dos procedimentos científicos e artísticos - das conclusões dos estudos de Agassiz. Além de exposição, haverá debates e o lançamento de um livro.

A coleção fotográfica de Louis Agassiz, segundo Maria Helena, compõe um acervo visual valioso para o conhecimento da história da fotografia antropológica e dos estudos raciais da segunda metade do século 19, e é "uma das mais completas coleções a respeito da população brasileira" do período. Composta por quase 200 imagens, o conjunto encontra-se hoje praticamente inédito no Peabody Museum. Do conjunto do acervo, escolheram-se 40 fotografias, muitas inéditas.

Louis Agassiz esteve no Brasil num momento em que, embora o tráfico de escravos internacional estivesse legalmente fechado, a escravidão continuava florescente, viabilizando a expansão das áreas cafeeiras. Defensor das teses do criacionismo e do poligenismo (e da condenação do hibridismo no contexto norte-americano na Guerra Civil, de1861 a 1865), Agassiz se tornou um dos principais ideólogos da segregação na América.

Para o naturalista, o Brasil era um laboratório ideal para seu estudo, por conta do alto grau de miscigenação. Apesar disso, Agassiz não publicou nada sobre a viagem. Quem o fez foi sua mulher, Elizabeth Cary Agassiz, que havia funcionado como cronista da expedição, no livro Journey in Brazil (Viagem ao Brasil), de mais de 500 páginas. Mas Elizabeth é um veículo através do qual Louis Agassiz pontifica e ratifica seus pontos de vista altamente reacionários, tornando-se ele, em certo sentido, o verdadeiro autor. Segundo o casal Agassiz, por tolerar a mistura de raças, o Brasil havia produzido espetáculo inigualável à observação do naturalista. "A consequência natural de ininterruptas alianças entre pessoas de sangue misturado é uma classe de indivíduos em que o tipo puro desaparece completamente assim como todas as qualidades físicas e morais das raças primitivas, produzindo mestiços tão repulsivos como cachorros vira-latas, os quais estão aptos para ser a companhia destes e entre os quais não se descobre um único indivíduo que tenha conservado a inteligência, a nobreza e afeição natural que fazem do cão de pura raça o companheiro predileto do homem civilizado", diz trecho do livro.

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