Livro e mostra repassam vida e obra de Bruno Giorgi

O maior escultor do Brasil no século 20 fez seu primeiro curso de escultura por engano. Despachado para Roma pelos pais, Bruno Giorgi deveria fazer um curso de pintura na capital italiana, mas a matrícula foi errada. Ele tinha de decorar os músculos e ossos do corpo humano na escola de mestre Loss, onde fez seu primeiro trabalho, uma cabeça grega. Não se sabe se tal conhecimento da nomenclatura anatômica influiu alguma coisa no futuro do artista, mas de qualquer modo, quando morreu, em 1993 aos 88, Giorgi era uma unanimidade. Tinha o reconhecimento da crítica e do público. Até mesmo o oficial, já que virou uma espécie de "escultor de Brasilia", ao encher a capital com seus guerreiros, candangos e um meteoro.Hoje, consagrado, terá lançado no Museu da Escultura (av. Europa -- tel. 3081-8611), às 19 horas, o livro Bruno Giorgi 1905-1993, editado pela Metalivros com patrocínio do grupo Tejofran-Power. Na mesma ocasião, será inaugurada a exposição Bruno Giorgi - Desenhos, que dura até 9 de dezembro. O volume, organizado por Piedade Grinberg, diretora do Solar Grandjean de Montigny do Centro Cultural da PUC-Rio, conta a vida de Giorgi e historia sua obra, usando para isso o amplo acesso que a pesquisadora teve ao arquivo pessoal do artista e à coleção da viúva dele, Leontina Ribeiro. São 146 páginas, com 130 ilustrações, citação a fontes inéditas como documentos, textos, depoimentos, cartas e fotos. Os 2 mil exemplares terão o preço de R$ 68 e o objetivo de servir como obra de referência sobre o artista.Piedade Grinberg também é a curadora da exposição Bruno Giorgi - Desenhos. De certa forma, a mostra é um subproduto da pesquisa para o livro, resultado da descoberta de 40 desenhos inéditos, da coleção da viúva de Giorgi. A exposição tem desenhos de várias fases e épocas, a maioria de 70x90 cm, a maior parte de projetos para esculturas, outros projetos para monumentos e desenhos de mulheres, mais trabalhos esparsos. Entre estes, o destaque é o de um estudo para autoretrato, que mostra como Giorgi era um desenhista competente. que também gostava de pintar como hobby, embora aí sua eficácia ficasse apenas no apuro técnico. Bruno Giorgi, como conta o livro, nasceu em Mocóca, no estado de São Paulo, onde o pai, imigrante italiano, chegou a cavalo, como vendedor e comprador de café. Quando Bruno nasceu, o pai já ganhara bastante dinheiro a ponto de, diante da inapetência do menino ao estudar matemática, resolver que ele seria artista e mandá-lo para Roma.Na Itália, ele se envolveu com a resistência antifascista e acabou sendopreso e condenado a quatro anos de prisão. Com ajuda da embaixada, usou sua condição de brasileiro para ser deportado. Voltou à Europa para se juntar às forças republicanas que lutavam contra Franco. Mas, como escultor, acharam que seria mais útil em Paris, como coordenador de um centro de antifascistas.Com a Segunda Guerra, Bruno Giorgi voltou ao Brasil. Morando em São Paulo, produziu muito e vendeu pouco, sobretudo figuras femininas robustas, sob a influência de Aristide Maillol. Para melhorar a renda, ele até esculpia figuras para túmulos. Um dia, o ministro da Educação Gustavo Capanema encomendou um Monumento à Juventude para ele. A notícia veio num telegrama de Mário de Andrade: "Bruno, acabou a miséria." A partir daí, ninguém mais segurou o artista. Ele sempre trabalhou como um lobo solitário, sem formar discípulos, como é comum com escultores. No bronze, no mármore de Carrara (lugar onde aliás se casou com Leontina), Bruno Giorgi sempre foi um artista de estilo próprio, um lutador que tirava da matéria bruta uma visão da vida.

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