Livro e filme recriam a Espanha dos tempos de Goya

Um Goya apolítico, mas não alienado dasituação política espanhola em seu tempo. Assim o primeiropintor realmente moderno do Ocidente é retratado no filme OsFantasmas de Goya (título provisório), que deve estrear em SãoPaulo em setembro. Dirigido pelo cineasta checo Milos Forman(Amadeus) com roteiro do francês Jean-Claude Carrière (o maisconstante colaborador de Buñuel), o filme rendeu o romancehomônimo assinado pela dupla, lançado agora pela editoraCompanhia das Letras (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitmans,318 págs., R$ 44). Normalmente, toma-se o caminho inverso:livros inspiram filmes. Neste caso, foi o argumento do filme deForman que deu a Carrière a chance de desenvolver um romanceenvolvente sobre os fantasmas da Inquisição que sempreperseguiram a Espanha e os países católicos. Pode-se argumentar que a intenção original de Forman aoconceber o projeto era até mais ambiciosa, mas jamais condenar oroteirista Carrière por concentrar seus esforços numa históriaque cruza os destinos de três personagens com diferentes visõesde mundo: o pintor Goya, o dominicano inquisidor Lorenzo e Inés,a adolescente modelo do artista. Forman teve a idéia de fazer umfilme sobre Goya há 50 anos, quando ainda era um estudante naentão comunista Checoslováquia. Sua associação era automática econtinua a fazer sentido num mundo rateado entre um pequenonúmero de potências. A Checoslováquia, na época, era um satélite da UniãoSoviética, que prometia trazer a liberdade para o povo checo,assim como Napoleão prometera modernizar a Espanha e livrá-la doranço conservador. Obviamente, a grande lição é que não se deveconfiar em invasores: Napoleão não só não liberou a Espanha comocolocou o próprio irmão no trono espanhol; a extinta URSS nãohesitou em usar os mesmos métodos da Inquisição espanhola parapunir dissidentes checos. Na era comunista, claro, Forman jamais teria realizadoesse filme. Hoje, com o triunfo do pensamento liberal, nem ofilme nem o livro tomaram a forma de parábola políticapretendida pelo cineasta, o que não diminui em nada o esforço deCarrière para retratar o pintor como um homem de incômodaindependência ideológica que circulou entre dois mundos - acorte e o povo - sem pender para nenhum dos lados. Da mesmaforma que pintou reis e inquisidores, retratou o povo com oolhar crítico de quem conhecia bem seus costumes - algunsbizarros, como prova sua série "Caprichos", dedicada ainvestigar os muitos vícios e as poucas virtudes dos homens. O livro se passa na Espanha, em 1792, um dos períodosmais ricos da história européia, especialmente pela disseminaçãodos valores da Revolução Francesa e da influência iluminista queapenas a conservadora Espanha insistia em ignorar, até serinvadida por Napoleão. Católica e comandada por um monarcapertencente à mesma família do rei da França, era um reinodominado pelos fantasmas da Inquisição, dos quais o maisassustador vem a ser o fanático Lorenzo. Inés, musa de Goya,entra na história por uma acusação falsa de heresia. Goya éretratado como o gênio pintor aceito pela corte - não semreservas, por criticar em suas gravuras os métodosinquisitoriais. O que Carrière discute no livro é a integridade de Goya,cujo compromisso maior não se ajusta a nenhuma linha política depensamento, mas apenas à arte. Lorenzo é o antípoda, movido pelafé irracional e por uma filosofia de restauração dos valoresdefendidos pela Inquisição. Já Inés envolve-se com o último aose esgotar a última possibilidade de escapar da acusação deheresia que pesa sobre ela. Apesar de pertencer a uma família deboa reputação, Inés é perseguida pelo Santo Ofício, não sósuspeita de práticas ligadas à tradição judaica, masespecialmente por seu comportamento liberal que tanta fascinaGoya, obcecado por ela. Se Lorenzo defende a restauração da força inquisitorialcomo arma contra o declínio moral espanhol, Goya não podeignorar a força da lição revolucionária francesa, assim comoInés representa o vigor juvenil, o pêndulo entre doisantagonistas numa Espanha habitada por fantasmas e que parecenunca ter se livrado de sua obsessão: o culto à morte. A sérieTauromaquia é a prova trágica desse indelével traço cultural.

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