Livro e exposição enfocam parteiras

No Norte e Nordeste uma figuramuito comum é a da parteira, mulher que pode viajar até 13 horasde barco, ou subir cachoeiras e fazer tantos outros caminhospara chegar a qualquer lugar remoto ou mesmo a uma casa dequalquer das cidades da região. Lá, elas ajudam as parturientesa ter o filho dentro de sua casa, "perto de pessoas queridas",como diz a primeira-dama do Estado do Amapá e deputada estadual,Janete Capiberibe. É uma cultura ou costume um pouco distante deoutras regiões do País. Para se conhecer a rica história das parteiras e umprojeto que vem sendo desenvolvido desde 1995, há o livroParindo um Mundo Novo - Janete Capiberibe e as Parteiras doAmapá, que será lançado nesta quarta-feira, às 18h30, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Ao mesmo tempo, há a oportunidade de se ver aexposição Buchudas, no mesmo local, que traz 22imagens captadas pelo fotojornalista Giuseppe Bizzarri, italianoque seguiu durante 15 dias o cotidiano de uma gestante de 27anos e o trabalho de uma parteira de 56 anos, ambas moradoras deLaranjal do Jari, vilarejo do Estado do Amapá. Parindo um Mundo Novo é baseado no projeto ParteirasTradicionais do Amapá, criado por Janete em 1995 para divulgar otrabalho dessas mulheres para que um dia elas sejam consideradasfuncionárias da saúde. "Uma pesquisa de 1998 mostrou que 60 milparteiras do Norte e Nordeste foram responsáveis por 450 milpartos. O projeto é para melhorar a vida delas, capacitandonovas parteiras e requalificando as antigas", explica Janete. O livro conta a história do projeto, com depoimentos de62 das 1.500 parteiras integrantes do programa. A organizaçãodos depoimentos é do filólogo Nilson Moulin e de Luiza Jucá,trabalho iniciado em março do ano passado.O esforço da deputadae das outras pessoas envolvidas no projeto começou há muito. Parteiras Tradicionais do Amapá tem projeçãointernacional e parceiros como o Unicef, o Ministério da Saúde eorganizações não governamentais. Em 1998 Janete organizou umencontro internacional que contou com a presença de deputadas doParlamento europeu, parteiras do Canadá e da ex-primeira-dama daFrança, Danielle Mitterrand. A idéia principal era alertar para a precária situaçãodas parteiras e, ao mesmo tempo, chamar a atenção para amelhoria da assistência aos partos domiciliares com vista àredução da taxa de mortalidade. "O Amapá é o único Estado que paga meio salário mínimo paraessas mulheres, que oficialmente não fazem parte da redepública", diz. Material para trabalhar e um salário são as preocupaçõesprincipais do projeto social. Entre os parceiros está a Unicef,que apoiou o programa com um kit chamado Bolsa-Parteira, contendouma panela de pressão para esterilização dos instrumentos, comoas tesourinhas, luvas, aventais, toucas, aparelho para auscultaro coração dos recém-nascidos e também preservativos para que asparteiras possam educar os cidadãos em relação a doençassexualmente transmissíveis e também ao controle de natalidade.Essas profissionais fazem ainda cursos de capacitação. Janete quer expor seu projeto em Brasília. "Pouco apouco elas vão sendo incluídas na rede pública e acredito quedaqui a uns 15 anos todas sejam regularizadas", diz. A deputada eprimeira-dama estará no lançamento de Parindo um Mundo Novo,editado pela Editora Cortez. Exposição - A instalação das fotografias de GiuseppeBizzarri foi pensada de forma a que se remetesse à idéia doútero materno. Nas duas salas - uma com imagens ampliadas eoutra com projeção de slides - há trilha sonora feitaespecialmente por Mintcho Garrammone. As músicas lembram a vidano vilarejo de Laranjal do Jari, local onde foi feita areportagem fotográfica. Bizzarri foi convidado há dois anos pelo governo doAmapá para retratar alguns dos itens do projeto criado porJanete Capiberibe. "Entrei em contato com várias parteiras, masoptei por reportar o cotidiano de uma grávida e de umaparteira", explica o fotojornalista italiano. Ele acompanhou durante 15 dias a vida de Gesilene Gomes,de 27 anos, na época grávida de nove meses de seu quinto filho."No Amazonas, muitas crianças ainda são ´puxadas´ pelas mãos deuma parteira", escreve o fotógrafo no texto para a exposição.Maria de Nazaré, a parteira escolhida, "tinha 13 anos quando´puxou´ a primeira criança", conta Bizzarri. No mesmo texto, o italiano diz que Gesilene estava muitogorda e, por isso, era chamada de "buchuda". Daí surgiu o nomeda exposição de fotografias coloridas, ampliadas com opatrocínio da Fuji. Buchudas já fez sucesso na Itália, Suíça e Françaporque "mostra uma realidade desconhecida, uma impressão decomo essas pessoas vivem em um Brasil remoto", diz GiuseppeBizzarri. A mostra pode ser visitada até domingo.Buchudas Até domingo, das 10 às 20 horas. Sesc Pompéia. RuaClélia, 93, tel. 3871-7700. Grátis. Parindo um Mundo Novo -Janete Capiberibe e as Parteiras do Amapá. Organizado porNilson Moulin e Luiza Jucá. 140 páginas. R$ 22. Amanhã, às18h30. Sesc Pompéia.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.