Livro é divertido e elegante

Bravura Indômita é um romance tão interessante que é estranho não ser mais conhecido; no entanto, é algo compreensível quando se considera que seu autor, Charles Portis, publicou apenas cinco romances em meio século de trajetória e mantém uma atitude reclusa diante do assédio de um público leitor hoje restrito, porém intenso em sua avidez. Acontece que entre esses leitores estão os irmãos Ethan e Joel Coen, e os cineastas decidiram transformar o elegante e divertido livro de Portis em um elegante e divertido filme, a segunda vez que o livro é adaptado às telas. É com uma capa diretamente referente ao filme que o livro chega ao País, e é sempre interessante quando diretores tão competentes e criativos quanto os Coen se debruçam sobre livros singulares como Bravura Indômita.

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

É notório que o western é o mais americano dos gêneros. Há romances noir em todas as latitudes possíveis - o mesmo não pode ser dito sobre o western. Ele é estadunidense até o último fio de cabelo porque seu pêndulo moral básico - uma envenenada noção de justiça - e seus personagens típicos - o índio, o xerife, o ranger, o juiz - é resultado de um processo histórico muito específico. Bravura Indômita possui fartamente todos os elementos do gênero, com uma variante: narrado por Mattie Ross, que rememora na maturidade sua aventura juvenil, Portis demonstra um engenho admirável ao não permitir que a Mattie madura varra para fora da narrativa a ingenuidade e o encantamento juvenil. O notório sucesso de Portis está nessa aposta: narrar uma estória de vingança bastante convencional colocando como coração do livro uma menina, cujos olhos veem com bem disfarçada excitação toda essa galeria de personagens que encontra no seu obstinado caminho de vingança.

O romance se inicia com o reconhecimento do cadáver e segue por alguns capítulos como um mergulho calculista na arte de negociação: Mattie negocia com fria argúcia o transporte do cadáver do seu pai e a venda dos pôneis que ele comprara. Ela se apaixona cegamente por uma ideia torta de justiça e, incapaz de se vingar do assassinato de seu pai pelas suas próprias mãos, contrata Rooster Cogburn para ajudá-la na caçada a Chaney. Personagem maravilhosa, Cogburn é ao mesmo tempo facínora inclemente e divertido observador, e sua visão de mundo contrasta com o coração gelado de Mattie. Cogburn é maior que o mundo: sofrido, combalido, valoroso, covarde, sedutor, bonachão - ele é nobre e patético. A cada aparição, algo novo da personagem é revelado. É visível na página o entusiasmo de Portis com sua criação, e é compreensível que foram escalados dois atores icônicos e carismáticos - John Wayne e Jeff Bridges - para recriá-lo nas telas.

Logo entra na aventura Le Boeuf, um gaiato Texas Ranger em busca de uma recompensa, e o livro ganha um ar cômico contagiante: sem jamais abandonar o tom de voz metálico com ecos bíblicos com o qual Mattie reconta sua aventura, o conflito entre todas essas personalidades provoca um humor nervoso: é uma estória motivada por sentimentos belicosos e pouco nobres, recheada de violência, cujo confronto final convulsionado de delírio não poderia ser mais trágico. É como a própria narradora afirma logo no início de sua rememoração: não há como fugir das consequências de seus atos. É a crença cega nessa autoridade do destino que faz com que Mattie se apaixone tão radicalmente pela vingança, e creia ser ela mesma a encarnação dessa justiça. No entanto, o mundo sempre cobra um preço, e a estória de Bravura Indômita mostra que inclusive da obstinada menina Mattie Ross.

BRAVURA INDÔMITA

Autor: Charles Portis

Tradução: Cassio de Arantes Leite

Editora: Alfaguara (192 págs., R$ 29,90).

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