Livro ?Dois Irmãos? é sobre gêmeos idênticos

Dois Irmãos gira em torno de Yaqub e Omar, filhos de Halim e Zana. Gêmeos idênticos, em tudo parecidos, menos no comportamento. Os dois competirão pelo amor dos familiares e das mulheres de Manaus. Yaqub, regrado, segue os estudos, vai a São Paulo, forma-se em engenharia e casa-se. Omar freqüenta prostíbulos em Manaus, tem uma vida errante ? e é o preferido da mãe. O narrador, Nael, é filho de uma agregada da família, Domingas, vinda do interior do Amazonas. Seu pai é um enigma que não se resolve: Yaqub ou Omar.Em entrevista, Hatoum falou sobre Dois Irmãos (Companhia das Letras, 270 págs., R$ 24) e também sobre Um Rio entre Dois Mundos, romance sobre o qual já deu entrevistas, mas que ainda não entregou ao editor. Disse que não escreve pouco e que não considera importante publicar muito: ?Na pressa, pode-se acabar prejudicando o leitor?, brinca. ?Adoraria viver do que escrevo, mas não posso escrever para vender.? Estadao ? O que aconteceu com ?Um Rio entre Dois Mundos?? Milton Hatoum ? Eu acabei, mas não publiquei. Preciso reescrevê-lo. São quase 600 páginas. Está adormecendo, esperando por uma cirurgia drástica. Você escreve devagar? São 11 anos, desde o lançamento de ?Relato de um Certo Oriente?. Na verdade, eu demorei para publicar. Eu não parei de escrever. Publiquei contos em jornais, ensaios, reflexões. Romance, escrevi dois, mas não publiquei. Não tinha acertado o tom, achei que os enredos ficaram confusos. Não acho importante publicar muito. Na pressa, pode-se acabar prejudicando o leitor. Em ?Dois Irmãos?, você acha que amarrou uma boa história?Quando se termina um livro e se entrega a uma editora, é porque você já escreveu alguma verdade íntima. A maior dificuldade é encontrar o tom adequado ao seu enredo. Se isso não acontecer, é melhor não publicar. Porque, aí, as questões técnicas do romance são importantes. O romance tem de convencer o leitor daquilo que é narrado. O narrador do seu novo livro começa pouco presente, como se a história fosse ser contada em terceira pessoa. Aos poucos, ganha força.Ele é um narrador que se mostra aos poucos. No início, o leitor não sabe quem está contando a história. De alguma forma, eu também não sabia. Acontece com ele algo que também se passa no romance, em que os problemas se mostram aos poucos, nada é revelado de uma forma ostensiva. Até o fim, nem tudo é revelado. Como o narrador está à margem da família ao mesmo tempo em que está no centro do drama familiar, ele participa desse jogo sutil entre o centro e a periferia. Ele é desfavorecido socialmente, é um filho bastardo, não sabe quem é o pai. Suas origens são difusas, como aliás são problemáticas as origens de todos os personagens. De início, era um narrador menos presente, que cresceu nas últimas versões. Foi um problema que eu tive de resolver.Você escreve sobre Manaus e o encontro de dois mundos. É daí que surgem suas preocupações?Acho que esse é o meu livro... Eu só tenho dois livros, uma das vantagens de se publicar pouco é que as minhas referências são poucas. Eu diria que esse meu segundo romance é muito mais manauara que o primeiro. Há personagens de vários estratos sociais, um descentramento generalizado. A personagem Domingas vem do médio Rio Negro, de uma cidadezinha, há o peixeiro, um professor e poeta, um caboclo ex-comandante de embarcação. Tudo isso faz parte de um mundo manauara, misturado com o mundo dos imigrantes, que também já fazem parte da cultura brasileira. De certa forma, esse é o meu mundo. Eu não posso escrever sobre a Bulgária nem sobre a Bielo-Rússia, mas posso sobre as violonistas búlgaras e bielo-russas que integram a Filarmônica Amazônica, sobre a perplexidade dessas européias em Manaus. Nasci nesse mundo, mas é um mundo distante no tempo. Acho que o romance e a literatura são melhores quando remetem ao passado.É uma preocupação da história também. Por que acha mais difícil escrever um romance sobre o presente?O presente é muito circunstancial, e a literatura não fala do circunstancial. A crônica, sim, está no tempo presente. Mas entre o romance e a crônica há uma enorme diferença. O romance é uma construção, uma invenção de eventos passados, ao mesmo tempo verossímeis para o leitor. O problema do romance é trazer esse passado para a leitura do presente. O que determina a força do romance é a organização interna e o grau de persuasão. Para mim, acho impossível falar do presente. O mais próximo que eu cheguei foram os anos 60, quando o poeta é assassinado, no momento do golpe militar. Esse foi o meu grito abafado, que há tanto tempo eu queria dar na literatura, e eu só resolvi por meio desse poeta da província.Você não gosta de ser chamado de escritor regionalista. Acha que as cores locais não poder sobrepor o que está sendo contado. Como vê essa questão em ?Dois Irmãos??Só o leitor pode dizer se é um romance regionalista ou não. O regionalismo está preso ao pitoresco, à cor local, ao determinismo geográfico. Acho que a literatura fala do particular para invocar o universal. No primeiro relato, tentei evitar, talvez com um temor exagerado, muitas referências ao Amazonas. Mas eu acho que, para falar sobre a Amazônia, não é necessário usar páginas e páginas para descrever a natureza. Posso falar do Amazonas dando ao leitor um drama humano, porque os dramas humanos não têm pátria. Agora, minha pátria pequena é Manaus.Há alguns anos, você tinha um romance inconcluso, sobre um escritor que passava a vida tentando escrever um único livro. É um dos seus romances por reescrever?Não, esse foi totalmente abandonado. Não tem mais salvação. Alguns textos não têm salvação, outros podem ser totalmente reescritos. Dois Irmãos teve o manuscrito lido por várias pessoas. O romance é, de certa forma, uma atividade solitária, mas eu acho que o diálogo, o diálogo dos manuscritos, é importante. As pessoas devem ler, e todos os que leram fizeram observações importantes. A partir delas, você reescreve, repensa o texto. Todo o romance transcorre em torno da família. Quando Yaqub vem a São Paulo, apenas o que muda a vida da família em Manaus é contado. Por que você optou por ficar em Manaus o tempo todo, como se a história toda saísse do quartinho do narrador?Eu parti de um drama muito particular, que acontece numa casa que se situa em Manaus. Daí surgem todos os dramas particulares decorrentes disso: de Halim, um homem apaixonado que não quer ter filhos, a conquista amorosa de uma mulher, Zana, e das coisas que não dão certo para ele: os filhos que ele não queria ter e a relação conflituosa entre esses dois filhos, com a ressonância bíblica da história entre Esaú e Jacó, filhos de Rebeca e Isaac. Como na Bíblia e em muitas famílias, há um filho predileto, escolhido pela mãe. Tudo isso se passa numa cidade que eu conheço, em que eu tive uma convivência profunda. A arte fala do particular; mesmo para alegorizar, ela parte do fragmento, para transmitir certos valores humanos. Quando o mito bíblico de Esaú e Jacó passou a preocupá-lo e por que você decidiu escrever esse romance?Desde a leitura de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e da leitura da Bíblia, mas é uma coisa que também está dentro de mim. Sempre oscilei entre a errância ? vivi em sete cidades ? e a falta que faz um lugar fixo, um enquadramento. Esses extremos, essa tensão que surge entre o nômade e o sedentário, sempre me tocaram. Saí de Manaus muito jovem, aos 15 anos, e eu não queria ter saído... Queria e não queria. Eu era um seresteiro, um boêmio. Com 13, 14 anos, eu freqüentei a zona, a vida noturna. Tudo isso estava dentro de mim. E há dramas contados por outras pessoas. Às vezes, o leitor pensa que as histórias estão coladas à vida do autor. Não é sempre assim, é só um pouco assim. Tudo isso num mundo muito específico, que é o Amazonas, esse rio entre dois mundos, entre a imigração e a vida manauara. Que na verdade já estão se fundindo.Sim, os personagens cuja origem é libanesa já estão mudados. O próprio Halim: seu drama não é voltar para o Líbano. Ele quer é viver na terra que escolheu. Sofre por uma paixão roubada, roubada pelo filho.

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