Livro documenta os últimos 18 meses do Carandiru

Aleluia, Claudinho, Professor Amauri, Twin, Daniel, Favela, Lenno, Manoel, Edivaldo. Os personagens eram muitos, havia 7,5 mil deles a certa altura. "Eu conheço cada buraco, cada pedaço de cimento queimado", disse Sérgio Zeppelin, em seu depoimento. Tudo foi pelos ares recentemente, mas as histórias e os documentos finais da epopéia da Casa de Detenção, o lendário Carandiru, voltam à tona com o lançamento de Aqui Dentro - Páginas de Uma Memória: Carandiru, um trabalho conjunto de Maureen e Sophia Bisilliat, André Caramante e João Wainer, lançamento da Imprensa Oficial do Estado e o Memorial da América Latina. Será hoje, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (o livro custa R$ 60).Durante um ano e meio, de segunda a sexta-feira, eles foram à Detenção no período que antecedeu sua desativação. E documentaram e ouviram presos. Para a atriz Sophia Bisilliat, ouvir os presos não era uma novidade: ela passou 20 anos de sua vida trabalhando como voluntária no Carandiru. "Eu passava de metrô por ali e dizia: um dia vou trabalhar lá dentro", conta Sophia, que teve um irmão preso quando era adolescente. "Tinha vontade de fazer algo por eles. Se um dia me pedirem para voltar, eu volto", afirma.Sophia adotou o Carandiru e tornou-se uma espécie de madrinha da comunidade carcerária, uma Rita Cadillac que nunca precisou rebolar. Ela chegou a organizar um desfile de modas com travestis, trilha de Roberto Carlos e modelos de Marcelo Sommer, no Pavilhão 6. Quando ela soube que o presídio ia ser desativado, reuniu-se com uma equipe para começar o planejamento desse trabalho, que consiste em um apanhado de fotos e depoimentos de presos (mais de 70 horas de conversas), diretores, antigos funcionários, voluntários da igreja e da medicina. O retrato que emerge em Aqui Dentro não é o clichê do presídio, o caos e a desonra, a terra de ninguém. Na fotos de João Wainer e nos "stills" de Maureen Bisilliat surgem quartos extremamente arrumados, oratórios e demonstrações de fé, uma rotina de trabalho e de improvisação.Com a "diáspora" dos habitantes da Detenção para outros presídios do Estado e a demolição dos pavilhões, poder-se-ia pensar que a história acabou. Não só não terminou, como algumas relações se mantêm. Na semana passada, Sophia foi convidada a registrar uma première de um cantor de rap, no Guacuri. Os astros eram gente como Racionais MC?s. Ela era a única "de fora" no evento. "Quando ele estava no Carandiru, dizia que seu sonho era sair e fazer um show. Quando fez o show, me convidou. Ficou meu amigo, é um cara com quem eu posso contar", ela diz.

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