Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

Livro discute poética da língua portuguesa

Estudo de Mauricio Salles Vasconcelos tem como tema autores contemporâneos brasileiros, portugueses e africanos

Moacir Amâncio, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 18h48

No seu livro Espiral Terra, Mauricio Salles Vasconcelos confere destaque a autores vivos, em atividade no Brasil, Portugal e África, como informa o subtítulo: Poéticas Contemporâneas de Língua Portuguesa. Projeto ambicioso e aparentemente temerário, que colocaria o autor numa posição bastante incômoda e da qual muitos se afastam por diversos motivos, que é falar de obras em progresso. Há algo a ser repensado sobre isso, pois morte de autor encerra a produção, mas não é conclusiva. Não há dúvida sobre a importância de se explicar o passado, mas por onde anda o presente, essa chance única

Diante disso, Vasconcelos optou pelo diálogo com este momento único e decidiu enfocar, entre outros, poetas como Herberto Helder, português, Luís Carlos Patraquim, moçambicano, e o brasileiro Marcelo Ariel, que surge redimensionado num deslocamento dos centros de poder e cultura, numa subversão pelas beiradas. O que dizem, como e por que dizem escritores com produção em andamento? É, como sugere o título, um livro vertiginoso que tem como fio – às vezes tênue ou invisível, diluído, mas permeando as análises – a poesia instabilizadora e fulgurante de Helder, suas ramificações no presente e vínculos com o passado da cultura ocidental. Alguém se lembrará de fazer objeção à pletora de autores citados e às vezes de forma sintética a exigir consultas ou uma bagagem nada modesta de leitura para enfrentar essas páginas de maneira desenvolta. Mas pode não ser assim. Imaginada como uma constelação, e sem esquecer que a matéria poética cruza com as teorias e sobretudo vivências todas, o leitor perceberá que um livro de recorte acadêmico traz, de repente, uma proposta sobretudo poética, com o objetivo de captar uma universalidade em seus vasos comunicantes: da filosofia à economia, à política globalizada tudo é possível no abismo de uma linha ou de um verso, de uma só palavra. 

Vasconcelos, autor multi que também está lançando Moça em Blazer Xadrez (Giostri, 128 págs., R$ 35), com nove narrativas protagonizadas por mulheres, induz sempre à percepção poética, dinâmica, criativa, que rompe a burocracia dos gêneros e se torna vital. A própria forma da obra resulta disso. E, se algo não ficar tão evidente – o que não é a rigor uma falha – resta sempre o desafio da interrogação aberta ao futuro, capaz de envolver o protagonista desta história, o leitor, à mercê de um jogo de dados ininterrupto. É o tipo de livro do qual esse leitor não sairá intacto, no mínimo será picado pela inquietação a pulsar nessas páginas que exigem leitura maturada, do tipo que se prolonga como referência a médio e longo prazo. Uma das principais e mais estimulantes propostas do autor é buscar elementos que permitam a descoberta de um modo de ler este tempo em tempo real, a partir da urgência do tempo humano. 

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA (USP) E AUTOR DE ATA (RECORD), REUNIÃO DE POEMAS, E DE YONA E O ANDRÓGINO – NOTAS SOBRE POESIA E CABALA (NANKIN/EDUSP)

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