Livro discute o jornalismo na TV

Eram tempos obscuros. O comandantedo 2º Exército fez um discurso na formatura do Centro dePreparação de Oficiais da Reserva, o CPOR, em São Paulo. Quandoo repórter que fora cobrir o evento chegou à redação da TVCultura, o discurso já havia sido proibido pelo próprio militar,o que motivou um comentário irônico do futuro autor de Chatô, Fernando Morais: "Estamos proibidos de ouvir o que acabamos deescutar." João Batista de Andrade conta essas e outrashistórias no livro O Povo Fala, uma edição do Senac (128págs., R$ 20) que tem o sugestivo subtítulo de "Um Cineasta naÁrea de Jornalismo da TV Brasileira". Batista é um diretor importante: O Homem que VirouSuco, A Próxima Vítima. É romancista (Portal dosSonhos) e, desde 1999, doutor em Comunicação pela UniversidadeSão Paulo, a USP. Doutorou-se com uma tese sobre jornalismo natelevisão. Para a elaboração de sua tese, bastou a Batistadebruçar-se sobre o próprio trabalho, entre o final dos anos1960 aos 1970, quando militou na área informativa da televisão.Batista participou da elaboração de programas informativos queviraram marcos: em plena ditadura, não apenas ele, mas FernandoMorais, Vladimir Herzog, o Vlado, e alguns outros usavam todasas brechas possíveis para fazer uma verdadeira guerrilha dainformação. Em meio à massa de notícias impostas pelo regime, emconluio com as emissoras, queriam botar a cara do Brasil natelinha. O povo, suas necessidades e reivindicações. Esses profissionais formaram a vanguarda daredemocratização na TV. É o que Batista conta no livro. É umaexperiência importante de ser avaliada e assimilada. Complementaa retrospectiva do Globo Repórter embutida no 7.º É tudoVerdade - Festival Internacional de Documentários. A programaçãoinclui dois clássicos de Batista no Globo Repórter. Passamno CCBB: Wilsinho Galiléia, amanhã (17), às 16h30, e CasoNorte, na quinta-feira, às 18h30. O segundo é anterior aoprimeiro, um longa que seria exibido em duas partes no GloboRepórter, mas foi proibido. São docudramas, documentáriosdramatizados envolvendo atores e personagens reais. Antecipam oque seria vulgarizado, depois, em programas sem míseros 10% daconsciência estética e política de Batista. Gil Gomes, do Aquie Agora, é cria dele. Faz sua primeira aparição em CasoNorte, que usa um crime que envolve migrantes para discutir asmigrações internas e o preconceito contra os nordestinos. Na abertura do livro, Batista escreve que a questão daTV, no Brasil, é suficientemente complexa para permitir umhorário mais amplo e generoso do que parece ser o costume. Ele écrítico sobre a forma como a TV se consolidou no País, durante aditadura, com a conivência de empresários que bajulavam eserviam os poderosos em benefício próprio, para expandir efortalecer seus negócios. Mas durante toda a conversa desselivro, narrado em forma de depoimento crítico, está implícito otipo de veículo que a TV deveria ser e, às vezes, é, comoinserção na vida social brasileira. Batista passou por váriasredações de TV. Sua porta de entrada para o veículo foi oLiberdade de Imprensa, depois o Hora da Notícia, oJornal Nacional e o Globo Repórter. O livro mapeia essasexperiências todas. É dedicado a Vladimir Herzog, comoreconhecimento à importância de suas idéias. E também como umaeterna e indignada recusa à violência de que foi vítima.

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