Livro discute a ética na imprensa

Este é um livro que deveria tornar-se obrigatório nas faculdades de jornalismo, nas redações de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão - deveria ser entregue aos profissionais com os respectivos manuais de redação, mas não só: é um livro que precisa, muito, ser lido por quem se interessa por e discute a fundamental e tão atual questão da ética nos meios de comunicação de massa.O livro é Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 249 páginas, R$ 23), que o jornalista Eugênio Bucci lança na terça-feira, com noite de autógrafos começando às 19h30, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Bucci trabalha na Editora Abril e foi crítico de televisão do jornal O Estado de S. Paulo e da revista Veja". Nesse tempo, mostrou-se o melhor crítico de televisão do País.Seu trabalho como comentarista de televisão será comparável, pela profundidade, acuidade, visão humanística, abordagem interdisciplinar, preocupação ética, ao de Muniz Sodré com a vantagem da linguagem menos comprometida com a academia e a conseqüente clareza na explanação.Mesmo que Sobre Ética e Imprensa tenha como origem uma tese acadêmica, é uma narrativa clara e saborosa, ainda que profunda; apóia-se tanto em exemplos práticos quanto vai buscar nas disciplinas humanísticas chaves e corroborações para o raciocínio.Bucci trata, na introdução, de distinguir ética e etiqueta - a distinção, na verdade, guia o livro. "A etiqueta é pequena ética pela qual se estrutura a gramática dos cerimoniais", escreve. Um recado direto: "Cultivar a idéia de que os bons modos (...) resolvem por si os impasses que se apresentam é ajudar a tecer a cumplicidade entre o jornalismo e o poder, é reduzir os graves problemas da ética jornalística e dos meios de comunicação a uma questão de etiqueta. (...) Os jornalistas devem, sim, ser bem-educados (...), mas não em relação aos poderosos e aos saraus cibernéticos que eles organizam. Devem sê-lo em relação ao público."A ética jornalística, diz ele, não trata de premissas institucionais, mesmo que as pressuponha. Não é um rol de normas práticas, mas um sistema com uma lógica própria, um modo de pensar que requer decisões individuais - e que não é, entretanto, auto-suficiente. Há parâmetros filosóficos e mesmo etimológicos que o autor vai estudar. Propõe que o jornalismo é conflito. E que quando não há conflito, algo de errado há.No entanto, não é um exercício transcendental. Como num hospital onde se compra remédios falsificados não se pratica boa medicina, não há bom jornalismo numa empresa que realize operações escusas, ou em países onde as instituições democráticas sejam precárias. Os valores democráticos - que são públicos, não privados - são, portanto, a mais básica inspiração do bom jornalismo.Não faltam exemplos práticos. No capítulo em que interroga se faz sentido falar em ética na imprensa - e chegando à conclusão de que sim, faz sentido -, Bucci lembra que o Jornal Nacional, da Globo, tapeou, palavra dele, o telespectador em janeiro de 1984, ao transformar um comício na Praça da Sé, em São Paulo, numa festa comemorativa do aniversário da cidade; adiante, o telejornal ignorou o movimento pelas eleições diretas; mais tarde, ajudou a eleição de Fernando Collor.Não foi só a Globo que agiu assim, mas sua qualidade quase hegemônica torna mais grave - e a concentração dos meios de comunicação em poucas mãos é outro tópico a ser analisado: "Tamanha hegemonia (...) desequilibra o jogo democrático e a competição que faz funcionar a economia capitalista" - uma questão, assim, que, mais do que específica do jornalismo, diz respeito a toda a sociedade, ao modo como ela se organiza e funciona.Eugênio Bucci faz a crítica à cultura de auto-suficiência das redações, estuda a "ética de mercado", a "impostura da neutralidade", a invasão de privacidade, a exploração do sexo, o abuso de poder, o jornalismo como prolongamento do espetáculo, a necessidade de que a sociedade esteja envolvida nesse debate.Acrescenta sugestões de leitura, que vão desde A Imprensa e o Dever da Verdade", de Rui Barbosa, 1900, aos manuais de redação dos grandes jornais e indica sites que podem ser consultados sobre o assunto. Um grande livro que, mais do que respostas ou conselhos, propõe a reflexão sobre o papel da imprensa no mundo democrático.

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